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Público e Privado
Por mero acidente afetivo, lembro exatamente onde eu me encontrava quando os aviões foram lançados contra as Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. Tomava café com uma amiga na padaria Real, perto da minha casa. Tínhamos marcado o encontro para o período da manhã, com a intenção de conversar com calma, sem assédio de telefones celulares, e nos aconteceu aquilo. O atentado. Em dois minutos, cada um estava no seu carro, rumo ao trabalho, como fazem os jornalistas em emergências.
Não fosse pela presença da amiga, pelo café marcado e destruído, talvez não me lembrasse com precisão daquele momento histórico. Estava, naqueles dias, mergulhado numa profunda crise pessoal, ligada ao fim de um relacionamento. Uma crise que era somente minha. A outra parte liquidara o nosso assunto e prosseguira. Eu patinava. Enquanto o mundo mergulhava no horror e na perplexidade das imagens de Nova York, eu processava aquelas notícias espantosas através do filtro da autocomiseração. Parecia de alguma forma anestesiado.
Na semana passada, depois dos assassinatos no jornal Charlie Hebdo, na França, tive a sensação de um dejavu. O mundo produzia, novamente, uma tragédia de proporções monumentais, enquanto eu lutava, sem sucesso, para tirar os olhos do meu umbigo dolorido. As circunstâncias pessoais eram inteiramente diferentes daquelas de 14 anos atrás, mas o resultado, idêntico: no choque entre o público e o privado, o pessoal novamente prevaleceu.
No futuro, não me lembrarei do que fazia no momento em que os cartunistas foram assassinados em Paris – desta vez não haverá o encontro com a amiga para marcar a data. Minhas lembranças serão das circunstâncias sentimentais da minha vida. Para roubar uma frase do escritor americano Todd Gitlin, não terei vivido na história, mas na biografia.
Não sei se é assim com todo mundo, mas o conflito entre o particular e o geral, entre o que é íntimo e o que é coletivo, sempre se manifestou para mim de forma muito intensa. Faço aqui uma confissão: na noite em que o Corinthians venceu o campeonato paulista de 1977, depois de 23 anos na fila, eu, corintiano roxo, mal vi o jogo. Passei a maior parte da partida com a cabeça no colo de uma garota, no banco de uma pracinha na Penha, conversando sobre as coisas que fascinam os adolescentes. Sexo e amor, naturalmente. A explosão dos rojões me alertou sobre a disputa e me fez disparar para casa, tardiamente. Mal me lembro daquela partida histórica.
Na faculdade não foi diferente. Apaixonado por uma dona que de mim fazia gato e sapato, fui dividir com um colega de chapa para o centro acadêmico, Antônio, a dificuldade em me concentrar na campanha da eleição que se aproximava. Lembro do olhar dele, pouco vontade com a conversa, e da frase retumbante com que tentou me empurrar de volta fileiras da revolução: “A gente resolve as questões pessoais na luta política, companheiro”. Espero sinceramente que a fórmula tenha funcionado para ele. Para mim, nunca foi assim.
Como a grama do vizinho é sempre mais verde, inclusive aquela que a gente não vê, morro de inveja das pessoas capazes de compartimentalizar seus sentimentos. Essa forma vulcana de disciplina evita que a qualidade do trabalho ou o comprometimento com as atividades públicas sejam afetados por questões pessoais. A vida privada desaba, mas a pessoa está lá, atenta reunião de trabalho, participativa na discussão do condomínio, marchando entusiasmada contra o aumento da tarifa de ônibus. Quem me dera. Quando as coisas desabam na intimidade, só tenho vontade de pichar as paredes internas de casa, em letras garrafais, com uma recomendação urgente: RES-PI-RE! O resto pode esperar.
Exceto uns poucos, que vivem sua vida em público, penso que somos quase todos prisioneiros da nossa subjetividade. Em períodos relativamente normais, as experiências pessoais se impõem à nossa sensibilidade e moldam nossas memórias e sentimentos. O mundo interno se expõe ao externo, desde que esse não desmorone, como numa guerra ou numa catástrofe. Mesmo assim, haverá quem lembre a noite de um grande terremoto em Santiago do Chile como aquela em que conheceu o amor da sua vida. Ou o perdeu para outra pessoa.
A subjetividade, eu acho, é nosso destino. A afetividade, sina irreversível. Por isso, dentro de 10 ou 20 anos não me lembrarei onde estava no momento em que soube das mortes no Charlie Hebdo. Porque, na verdade, eu estava egoisticamente dentro de mim, ruminando conflitos banais e gigantescos da existência. Tomado por eles, na verdade. A hierarquia da vida parece ser clara: o que acontece dentro tem prioridade sobre o que se passa lá fora. Talvez um dia isso mude, mas não para mim. Quando meu neto vier me entrevistar sobre o 7 de janeiro de 2015, eu direi...
Assinale a alternativa que mantém a correta correspondência dos tempos verbais na passagem do trecho “A outra parte liquidara o nosso assunto” (l. 10) para a voz passiva.