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Você não precisa saber francês, ter vivido os horrores da II Guerra ou mesmo gostar de filmes antigos para se arrepiar com a cena de Casablanca (1942) em que os frequentadores do Rick’s Café erguem-se para cantar A Marselhesa, atendendo à provocação do líder da resistência Victor Laszlo (Paul Henreid) e abafando, com ardor cívico, _______ cantoria dos oficiais nazistas – assim como, simbolicamente, o próprio nazismo, que seria derrotado pelos Aliados pouco tempo depois da estreia do filme.
Na última quarta-feira, em uma manifestação em Trafalgar Square, no coração de Londres, cerca de 2 mil pessoas portando cartazes (“Nous Sommes Charlie”, “Keep Calm and Charlie On”) e levantando canetas no ar, como espadas, entoaram os versos de A Marselhesa como um gesto de resistência ao ataque ________ revista de humor Charlie Hebdo. Em uma semana com inédita produção de peças gráficas de qualidade sobre um mesmo assunto, hashtags “viralizadas” em questão de minutos, Torre Eiffel às escuras e manifestações espontâneas de solidariedade ao redor do mundo, A Marselhesa de Trafalgar Square e a linda artilharia de lápis e canetas em punho formaram uma das imagens mais tocantes.
Isso porque o hino mais conhecido do mundo não é apenas o ícone de um país, mas a música símbolo de todo um sistema de pensamento, o Iluminismo, que deu origem ao modelo americano de democracia, _______ Revolução Francesa e ________ civilização ocidental como a conhecemos hoje. O conjunto de ideias que tomou corpo na França no final do século 18 defendia, basicamente, o homem como medida de todas as coisas e a autonomia do indivíduo para criticar e desafiar todas as instituições. As leis deveriam ser aquelas acordadas entre os homens e não as ditadas pela tradição ou pelo sobrenatural, mas o novo modelo não excluía a possibilidade da experiência religiosa individual, apenas retirava a crença do lugar central que ocupava na sociedade. (O Estado laico, a propósito, é o único que torna possível, no plano ideal, a pluralidade de crenças e descrenças, sem o domínio autoritário de uma sobre as outras – platitude que as bancadas religiosas no Brasil nem sempre conseguem alcançar.)
A independência de pensamento e a possibilidade de criticar, questionar e mesmo ridicularizar qualquer tipo de autoridade, política ou religiosa, abriu espaço, entre outras coisas, para a imprensa livre, a ciência e a democracia moderna. A ideia de que todos os homens são iguais e de que nossas leis deveriam refletir valores da experiência humana, e não crenças religiosas, é a base da civilização ocidental – imperfeita, é verdade, mas aperfeiçoável. Como todos os seres humanos.
Em Casablanca, assim como em Trafalgar Square, A Marselhesa simboliza a resistência _______ um sistema muito pior do que o imperfeito e muitas vezes desigual modelo de democracia desenvolvido ao longo dos últimos 200 anos no Ocidente. Um modelo em que as instituições não são sagradas nem intocáveis e nenhuma ofensa simbólica é tão grande que valha o preço de uma vida humana.
Neste momento, no gigantesco salão do Rick’s Café que é o nosso mundo globalizado e conectado, estamos todos em pé, cantando A Marselhesa e celebrando os valores que ela representa – sem esquecer as reflexões humanistas que a II Guerra tornou para sempre incontornáveis: nenhuma pessoa jamais deveria ser perseguida ou segregada pela origem étnica, pela cor da pele ou pelas convicções religiosas. Defender os valores iluministas, sem deixar escorregar parte deles pelo caminho, é o grande desafio da Europa neste momento. E de todos aqueles que acreditam que liberdade, igualdade e fraternidade são ideais pelos quais ainda vale a pena lutar.
São palavras acentuadas pela mesma regra que determina o emprego de acento gráfico em excluía, lápis e espontâneas (palavras retiradas do texto), respectivamente: