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Por que bebês não falam como adultos?
O cenário: um berçário. Um bebê fala diretamente para a câmera: “Olhe para isso. Eu sou um homem livre. Posso ir aonde quiser agora”. Ele descreve suas últimas atividades no mercado de ações e é interrompido pelo telefone que toca. “Que horror! Espere um minuto.” Ele atende. “Ei, garota, posso te ligar depois?” Esse comercial de pouco mais de um minuto da E*Trade, veiculado em vários países (e disponível no YouTube), é apenas um exemplo de algo que atores e diretores de cinema sabem anos: é curioso e inusitado ver um bebê falando como adulto. Mas, afinal, por que crianças pequenas não conseguem se expressar de forma articulada? Trabalhos recentes apoiam a ideia de que a forma como as crianças aprendem – com passinhos de bebê – é sempre a mesma, não importa com qual idade comecem a aprender um idioma. Em outras palavras, alguns especialistas defendem que o nível de desenvolvimento mental do bebê tem muito pouco vínculo com o fato de conseguir ou não falar frases completas.
Muitos acreditam que crianças aprendem a falar copiando o que escutam. Ou seja, bebês ouvem palavras ditas pelos adultos, percebem a situação em que são usadas e imitam. O behaviorismo, a abordagem científica que dominou o estudo americano sobre cognição na primeira metade do século XX, usava exatamente esse argumento. Essa “teoria do papagaio”, entretanto, não consegue explicar por que bebês não são tão fluentes quanto os adultos. Afinal, quando foi a última vez que você ouviu um adulto se expressar com frases formadas por uma única palavra (“mamá”, “papá”) e usar frases curtas? É claro que é muito fácil mostrar que a teoria da imitação para aquisição da língua não pode esclarecer esses estranhos padrões na fala infantil. Na verdade, explicar o mundo com frases de uma palavra é muito mais difícil.
Ao longo dos últimos 50 anos, os cientistas chegaram a duas possibilidades razoáveis. Primeiro, a “hipótese do desenvolvimento mental” diz que uma criança de 1 ano fala dessa maneira porque seu cérebro imaturo não consegue lidar com discursos adultos. As crianças não aprendem a andar até que seu corpo esteja pronto; da mesma maneira, não falam com sentenças múltiplas ou usam sufixos e palavras que expressem funções ou situações complexas (“Mamãe abriu as caixas”) antes que seu cérebro seja capaz de lidar com isso. A segunda teoria, a “hipótese dos estágios da linguagem”, postula que o progresso crescente dos passos na fala das crianças é um processo necessário para o desenvolvimento. Um jogador de basquete não consegue encestar perfeitamente a bola antes de conseguir pular e lançar a bola, e as crianças, de maneira semelhante, aprendem primeiro a somar, depois a multiplicar – nunca na ordem inversa. A diferença entre as teorias pode ser resumida da seguinte forma: segundo a hipótese do desenvolvimento mental, os padrões de aprendizado de linguagem deveriam depender do nível intelectual da criança na fase em que começa a aprender uma língua. Segundo a hipótese dos estágios de linguagem, entretanto, os padrões de apreensão do conhecimento não dependem da capacidade mental. Porém, é difícil testar essa hipótese experimentalmente porque a maioria das crianças aprende a falar por volta da mesma idade – em estágios similares de desenvolvimento cognitivo.
Ainda hoje, porém, boa parte dos estudos nessa área foca apenas a comunicação direta entre o direta entre o adulto e a criança, deixando de lado um universo riquíssimo, composto por cantigas de ninar, brincadeiras com rimas e os muitos jogos verbais. É inegável, entretanto, que os bebês são tocados e estimulados de várias formas pela voz do adulto numa época anterior aos 2 anos, quando os pequenos recorrem ao corpo para se expressar. Nessa fase, os gestos e os sons emitidos por eles ocupam o lugar das palavras que ainda não podem ser pronunciadas. Esse processo pode ser estimulado, por exemplo, quando as crianças ouvem palavras ritmadas e cadências sonoras que as fazem adormecer. De início são as cantigas de ninar e o mamanhês (fala materna que se caracteriza por uma entonação particular ao se dirigir à criança) que acalantam os pequenos. Depois vêm os jogos orais propostos pelos adultos e que darão origem às brincadeiras de infância, nos quais confluem movimento e linguagem.
Assim como as cantigas, as histórias e lendas são preciosos brinquedos invisíveis que também podem ser importantes constituintes de subjetividade, caracterizando-se como objetos lúdicos e matrizes da linguagem oral e escrita.
Analise as afirmações sobre expressões e fragmentos do texto:
I. A expressão ‘com passinhos de bebê’ (l. 09) indica que a forma como as crianças aprendem a língua ocorre de maneira rápida e sem tropeços, assim como o caminhar dos bebês.
II. Entre as linhas 30 e 33, há uma comparação entre um jogador de basquete e as crianças: ambos não conseguem somar e multiplicar.
III. A expressão ‘mamanhês’ (l. 48) é composta pela mistura entre as palavras ‘mamães’ e ‘português’, ou seja, a língua que as mulheres que são mães falam entre si.
Quais estão INCORRETAS?