///
A AVENTURA DO LIVRO VANTAGENS E DESVANTAGENS DE SUA VIAGEM PELO MEIO ELETRÔNICO Gláucia Ventura
"Um Livro
Não há transporte comparável a um livro
Ou embarcações como a página
De tocante poesia,
Para nos levar às plagas mais longínquas
Tal travessia ao mais pobre oferecida
Não tem taxas de viagem
Quão frugal é a carruagem
Que ampara a alma humana!"
(Emily Dickinson)
1 Por vivermos na era da informatização, em que quase todas as funções e atividades humanas acabam sendo incorporadas ao computador, não é surpresa que o livro também tenha de se adaptar a esse contexto e, dessa forma, satisfazer suas decorrentes necessidades. A princípio parece assustadora, e até mesmo absurda, a ideia de que o livro, tal qual o conhecemos, será extinto, principalmente porque ele ainda faz parte da nossa cultura, do nosso cotidiano, sendo, portanto, inimaginável a sua total substituição pelo livro digital.
2 Na verdade, somente o suporte mudará, permanecendo o conteúdo. Considerando o livro como um veículo, podemos dizer que ele deixará de viajar por terra e seguirá sua viagem pelo ar. Quando viajamos pelas estradas, aventuramo-nos muito mais; podemos conhecer um pouco das regiões pelas quais passamos, além de termos o privilégio de admirar maravilhosas paisagens. Embora seja mais rápido e até mais seguro, viajar de avião nos priva disso, sobretudo para quem tem medo de altura e mal consegue se aproximar da janela. Talvez isso aconteça com o livro: deixaremos de ter a sensação da sua presença física para termos a imaterialidade da leitura na tela. Por isso, embora não tenhamos certeza e tão cedo não possamos verificar se nossas impressões estão corretas, vamos nos aventurar a discutir algumas vantagens e desvantagens da passagem do livro impresso para o livro eletrônico.
3 O primeiro aspecto positivo é a comunicação de textos a distância que, ao anular a distinção entre o lugar do texto e o lugar do leitor, aproxima-se da concretização do antigo sonho de Borges de uma biblioteca universal que disponibiliza todos os livros para qualquer pessoa, em qualquer lugar do planeta. Além disso, jamais haverá livros esgotados e os amantes das raridades poderiam adquirir a sua versão eletrônica. Os problemas de esgotamento dos recursos não-renováveis dos quais depende a fabricação do papel e a limitação da sua durabilidade também estarão resolvidos com o livro eletrônico, que terá vida muito mais longa.
4 O e-livro será de grande benefício para algumas pessoas especificamente, como por exemplo, os alérgicos, que terão no aparelho um grande aliado ao evitar o manuseio de obras muito antigas e empoeiradas. Outro grupo é o daqueles que têm ciúme e cuidados excessivos com os seus livros, que, com o e-book*, não terão mais a preocupação de emprestar seus livros com o medo de que não voltem intactos.
5 A principal desvantagem da leitura digital certamente é a perda da sensação física do livro. O ritual da sua compra, que já vem sendo modificado com a ascensão das livrarias virtuais, será totalmente alterado. O leitor não mais folheará o livro ou observará a capa e a textura antes de adquiri-lo. E as dedicatórias e os autógrafos? Como será o lançamento de um livro eletrônico? Será virtual também? E se quisermos presentear alguém? Mandaremos um e-mail com o livro eletrônico anexo? Podemos prever que, de algum modo, a existência eletrônica do livro diminuirá ainda mais o contato humano.
6 A segurança dos direitos autorais é outro problema que surge com a novidade. Embora algumas editoras virtuais estejam se preocupando com isso, ainda não há garantias de que o recolhimento dos direitos autorais no meio virtual trará menos prejuízos aos autores do que no meio impresso.
7 Além disso, essa tecnologia pode trazer um sério problema para a saúde. A exposição à tela por longas horas traz grandes prejuízos para a visão. Por fim, temos um outro fato negativo: as pessoas deixarão cada vez mais de usar a escrita com o próprio punho e esquecerão o prazer de escrever. No entanto, não podemos afirmar que o livro eletrônico acabará com o prazer de ler.
8 Assim como os e-mails não acabaram com as cartas, embora estas tenham diminuído bastante, e as pessoas que não escreviam passaram a se corresponder via correio eletrônico, podemos visualizar, com a migração do livro para o computador, uma oportunidade de cultivar o hábito da leitura já que a maioria das pessoas foram se afastando dos livros à medida que passavam mais tempo em frente à tela da TV e do computador.
9 Enfim, muda-se o suporte, as estruturas, mas a escrita permanece, pois como afirma Barbara Giovannini, a palavra escrita tem duração que desafia o tempo. Além disso, retomando a ideia inicial de ver o livro como um veículo capaz de proporcionar uma viagem ao leitor, podemos dizer que, mesmo existindo transportes cada vez mais rápidos e confortáveis, sempre haverá aventureiros, carregando uma mochila nas costas e pedindo carona no meio da estrada.
Em “[...] as pessoas deixarão cada vez mais de usar a escrita com o próprio punho e esquecerão o prazer de escrever.” (7º parágrafo), o verbo “esquecer” admite outra regência (sem mudar de sentido e sem mudar o tempo verbal). Assinale-a, tendo em vista a norma culta da língua: