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Nem sempre a vida supera a literatura. “Ele sobreviveu com sua armadura de livros e letras”
Com o perdão dos leitores que preferem a imprevisibilidade até o final, para se falar do recém-lançado O livro preto de Ariel (Editora Reaja, 2019), um desses casos em que a violência da vida adentra a ficção e parece por esta realçada, é oportuno citar um trecho da última página. “Ele sobreviveu com sua armadura de livros e letras”, anuncia o narrador. E nesta frase curta cabe parte da potência que este livro, o terceiro do autor baiano Hamilton Borges, 52 anos, carrega e nos oferece.
A trajetória do protagonista Ariel em certa medida parafraseia o provérbio africano que diz: “Até que os leões tenham suas histórias, os contos de caça glorificarão sempre o caçador”. Jovem negro, morador do nordeste de Amaralina, bairro pobre da capital baiana, preso sem entender sob que acusação, sem direito a um julgamento justo, violentado nas instalações do sistema prisional, é o sujeito em primeiro plano de uma revolução que se dá pela soma da consciência das fissuras do sistema e da corrupção do Estado, da força das ações coletivas e do acesso, ainda que mínimo, ao conhecimento. A narrativa da vida de Ariel, antes e durante quatro anos na prisão, mescla ficção e realidade de vários jovens negros como ele. A partir de sua experiência carcerária, conhecemos diferentes perfis de homens pretos marcados pelo racismo, extremamente eficiente, pode-se dizer, em suas práticas de exclusão e morte.
A cadeia, narrada por Borges, acumula memórias das pequenas humilhações cotidianas da população negra da Bahia, do medo de ser confundido com bandido na rua ou de acabar “esquecido” na prisão por falta de um defensor público. Além disso, as condições de alimentação, higiene e atendimento médico precários são explorados com a honestidade que falta muitas vezes em outros tipos de relatos, como os dos programas policiais de televisão. Destaca-se também o protagonismo das mulheres na luta, na contracorrente dos constrangimentos a que são submetidas mães e companheiras dos homens presos durante as visitas ou nas abordagens policiais nos bairros. [...]
Da trama real à escritura, o romance faz dois movimentos importantes; o primeiro, um recuo necessário na história recente da cidade de Salvador, para falar do genocídio da população negra e periférica, da militarização do sistema carcerário, das condições de vida dos presos, do racismo estrutural que marca previamente negros como população preferencial dos presídios e que nos serve de janela para pensar sobre o que ocorre em todo o país. O segundo, igualmente profundo, é o chamado sobre o poder transformador da literatura. Ariel mantém a sanidade quando preso graças ao amor pela namorada que o ajudou a aprender a ler longe da faixa etária prescrita pelo sistema de ensino, e por meio de uma escrita quase compulsiva praticada a contragosto das condições do presídio. [...]
Encontrar o equilíbrio entre ficção e história, forma literária e conteúdo, escrita e denúncia, é a tarefa incontestável do autor. Ariel transmuda uma cela em biblioteca e as paredes de uma solitária em folhas de papel, convocando o leitor a pensar como a leitura pode mudar rumos. Como bem define Matheuza Xavier, militante da organização política “Reaja ou será mort@” e coordenadora da Escola Pan-africanista Winnie Mandela, ele é “o herói tão esperado de nossos tempos, da pele preta e com lápis na mão”.
Do livro também escorre uma atualidade desconfortante, comprovada de novo pelos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o assombroso número de pessoas mortas pela polícia. Para trazer à superfície a violência por que é marcada a vida da população negra, além de Ariel, conhecemos uma galeria de personagens invisíveis no cotidiano branco de classe média; [...]
Em termos de representação de personagens negros, dar humanidade a quem o tecido social muitas vezes renega é algo a ser mais explorado na literatura. Os novos nomes que despontam em festas literárias e selos editoriais preocupados com esta autoria fazem uma curva importante, mas ainda incipiente, sobretudo em se tratando de temáticas específicas, como é o caso de Hamilton Borges. Ciente disso, o autor assume a posição de um escritor que quer propor novas representações não apenas da população preta, mas daquela que ocupa talvez a mais perversa instituição de controle social. O desafio de denunciar o Estado e ao mesmo passo humanizar personagens que apenas mais recentemente deixam de ocupar papéis subalternos torna o livro necessário para qualquer leitor disposto a entender o mundo equivocado e cruel em que fomos arremessados. É um convite a conhecer outras perspectivas sociais, o que deveria bastar como experiência estética. Para além, é claro, de marcar em nossa literatura atual uma narrativa de compreensão da própria história em marcha a partir da visão de sujeitos sem privilégios, alijados em uma posição quase intransponível de mobilidade social. [...]
Releia esta passagem.
“Ariel transmuda uma cela em biblioteca e as paredes de uma solitária em folhas de papel, convocando o leitor a pensar como a leitura pode mudar rumos.”
A figura de linguagem presente no trecho é a(o)