///
Amante serial
Não se pode dizer que é um cara bonito, o que sobressai é a rara educação requintada de um cavalheiro daqueles que puxam a cadeira para uma dama sentar. A ligeira timidez o faz ainda mais envolvente, além de ser um ouvinte atento, alguém perfeito para se confiar um segredo, a voz pausada e segura que, sorrindo de lado, faz parecer aquele querido amigo de infância que há muito sumiu de nossa vida. O papo não pode ser melhor, fala com desenvoltura sobre artes em geral, entremeando fofocas interessantes sobre a vida de um grande pintor do começo do século.
Durante o jantar sua personalidade ímpar é capaz de chamar atenção, fazendo um comentário contrário ao da maioria à mesa, demonstrando fatos contundentes que dão razão à sua tese. Num momento lá ele atende um telefonema e se ausenta por uns minutos. Quando volta, diz que sente muito mas "um imprevisto me chama e infelizmente preciso ir". Antes de sair promete marcar um novo encontro com ela para conversarem e se conhecerem melhor, deixando a intenção de ser alguém com potencial para se tornar mais íntimo.
Dois dias depois ele liga pra ela e combinam um cinema, talvez uns drinques depois, quem sabe um final de noite romanticamente feliz. Assistiram a Cinquenta tons de cinza, tomaram martinis no Chez Cherie e depois na questão "na minha casa ou na sua?" mais que depressa ele diz:
- Meu apê fica quase aqui ao lado. Vamos?
Pronto, meio caminho andado para que o plano meticulosamente traçado por ele desse certo. Antes passariam numa loja de bebidas como se tudo acontecesse ao sabor do momento, prometendo ao casal uma noitada inesquecível.
O apartamento é pequeno, típico de um solteiro que se cerca de livros, discos e uma mobília severa, mas de bom gosto. Coloca as duas garrafas de vinho no freezer e vai ter com ela na sala, onde um quadro de gosto duvidoso mostra um leão devorando uma gazela ensanguentada.
- Te agrada? Minha mãe pintou quando eu ainda era pequeno. Depois que ela morreu ficou comigo.
Sem esperar uma resposta afrouxa a gravata e a convida a tirar os sapatos enquanto escolhe como fundo musical a voz sensual de Sade. Ficam lá conversando sobre o filme que assistiram, comentando as cenas mais marcantes e vai surgindo um clima de cumplicidade que os envolve, revelando que aquela noite poderia ser ainda mais caliente que as exibidas no cinema.
O vinho geladinho aos poucos vai descontraindo e inebriando os corações, deixando-os sem papas na língua e destruindo qualquer parede de timidez.
Quando começam a se despir, o cenário rapidamente muda para o quarto. Vemos ambos arrancando o que resta de roupa de cada um e furiosamente se atirando na cama atracados como dois animais no cio. No meio do amasso, um segundo antes de chegarem ao orgasmo, ele repentinamente gira o corpo dela de frente e se fitam olhos nos olhos enquanto se vê um brilho metálico meio difuso. Nesse exato momento o som de sua voz macia anuncia as mesmas palavras que suas vítimas ouvem quando percebem que irão morrer nas mãos daquele homem cujo sorriso bondoso esconde um jeito criminoso de amar.
[...]
Depois de desmembrar o corpo na banheira, embrulhar os pedaços em sacos de lixo e colocá-los em duas malas de viagem com rodinhas, faz uma minuciosa faxina em todo o apartamento, destruindo qualquer vestígio da presença noturna de sua companheira. Toma banho, veste um terno bem cortado e pega o elevador onde uma vizinha pergunta se ele ia viajar.
- Tomara fosse. Estou carregando quase uma biblioteca de documentos de volta ao meu escritório.
Desce direto para a garagem, põe as malas no bagageiro, liga o carro e sai em direção à represa de Guarapiranga, onde vai desovando os sacos de lixo em pontos diferentes até completar a missão.
No caminho de volta, liga para um colega de trabalho:
- Cara, estou preso no trânsito por causa de um desastre e vou chegar muito atrasado. Ei, ainda está de pé o jantar de hoje com aquelas duas amigas que você comentou?
LEE, Rita. Dropz 1ª ed. São Paulo: Globo, 2017. p. 243-245. (Adaptado)
Do ponto de vista da norma culta, a única substituição que poderia ser feita, sem alteração de valor semântico e linguístico, seria: