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Qual o papel social e histórico da tradução? Quando, no século XIII, Afonso X (1221-1284), rei de Castela e Leon, ordenou a tradução ao espanhol de obras da literatura clássica árabe, latina e grega, explicitou que estava colocando em circulação saberes e propiciando discursos nobres em língua castelhana. Esse parece ser também o intuito da política de estímulo à tradução de textos de línguas indígenas para o português que o Estado nacional começa a desenhar, hoje, no Brasil, com o objetivo – entre outros – de atender a uma demanda do sistema nacional de educação e se adequar às políticas dos organismos internacionais, que passaram a valorizar os etnossaberes produzidos pelos índios. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) adverte que muitos dos recursos naturais em perigo são conhecidos exclusivamente por alguns povos cujas línguas estão ameaçadas de extinção, entre elas mais de 180 línguas faladas no Brasil, detentoras de conhecimentos vitais sobre as espécies naturais. Cada uma dessas línguas constitui um sistema de cognição singular e único. Uma parte da sociedade brasileira manifesta, hoje, interesse em conhecer a literatura, a poesia, as narrativas míticas e os etnossaberes que circulam atualmente nas línguas indígenas faladas no País. No entanto, os brasileiros só poderão ter acesso a essa produção que circula oralmente em línguas indígenas se forem feitas traduções para o português. Acontece que inexistem tradutores e dicionários para a maioria dessas línguas, e, quando existem, as traduções enfrentam pelo menos dois problemas cruciais, que merecem ser aqui destacados: um de afinidade tipológica das línguas em questão e outro do tipo de registro. O processo de tradução já é problemático até entre línguas aparentadas, pertencentes à mesma família ou ao mesmo tronco, e, portanto, com afinidades tipológicas, históricas e culturais. Mas esses problemas se tornam mais complexos no caso das línguas indígenas, que são línguas distantes das europeias, carregadas de conceitos que não têm necessariamente correspondência nas culturas ocidentais. Portanto, a tradução não está relacionada somente à tipologia linguística; apresenta obstáculos de ordem cultural. A dificuldade de encontrar equivalência entre línguas tão distantes aflora quando se entra no terreno da cultura material, especialmente no que se refere às taxionomias nativas em botânica e zoologia, mas adquire uma dimensão maior no campo da cultura imaterial, envolvendo estrutura de parentesco, religião, mitos. O novo, o estranho e o diferente não podem ser identificados com as categorias e valores europeus. Por isso, missionários e viajantes recorreram a imagens inteligíveis para o seu próprio universo cultural e, por não conseguirem transferir toda a carga de significados de uma cultura a outra, reduziram, simplificaram e até deformaram a diversidade cultural e ambiental. Assim, o cronista da viagem de Orellana (1540-1542) pelo rio Amazonas, frei Gaspar de Carvajal, relata que viu “elefantes e perdizes” na floresta amazônica, denominando assim a “anta e o mutum*”, da mesma forma que chama de “aveia” um tipo de arroz silvestre que cobria as margens alagadas do rio. *mutum – ave semelhante à galinha, da família dos abutres.
Considerado o português atual do Brasil, a alternativa que contém exemplo recente do processo de revitalização do léxico a partir da criação ou emprego de novas palavras é