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O futebol estará mais um tempo totalmente privado do talento de Ronaldo. Não sei quanto e considero descabido fazer previsões a respeito. Nem vou entrar em elucubrações em torno da continuidade da carreira ou da opção pela aposentadoria aos 31 anos. O Fenômeno, pelo que já fez, merece respeito - e neste momento, sobretudo, solidariedade -, pois enfrenta rival mais potente do que os botinudos que teve pela frente mundo afora.
Não foi por acaso que, no parágrafo anterior, usei o advérbio “totalmente”. Já disse que nos últimos cinco anos e meio aconteceu pouca coisa importante na carreira de Ronaldo. Após o desempenho memorável na campanha do pentacampeonato mundial, em 2002, teve esporádicos episódios de brilho – no Real, na Seleção e no Milan – e não a regularidade de alto rendimento que se espera de um astro de sua grandeza. As aparições foram intermitentes, como conseqüência de incontáveis contusões. Nos ambulatórios e nas salas de musculação ficava a promessa de Ronaldo de atingir metas, em geral de 30 gols, numa determinada temporada.
A quantidade de contusões que acometeram Ronaldo sempre me pareceu demasiada. Não só para mim, mas para especialistas. Não engoli jamais a teoria reducionista de “azar” ou a explicação de que os infortúnios eram seqüelas das pancadas que recebia ou do excesso de jogos. Justificativas muito óbvias, simplistas. No entanto, ao se levantar a hipótese de que se machucou tanto porque o organismo reagiu à moldagem artificial de início de carreira, quase sempre prevaleceu o silêncio.
Agora, uma ou outra voz resolve cutucar esse vespeiro – que tem a ver com a fabricação de corpos de atletas de alto nível. A prática de construir super-homens começa a ser contestada, em especial quando se fala de abuso de recursos químicos. Não sou tolo de achar que garotos franzinos e talentosos possam suportar pontapés impunemente. Precisam ganhar massa muscular e, para tanto, contam com os avanços da medicina. O ponto é: como conciliar a herança genética com os suplementos alimentares, as dietas, os aparelhos de ginástica? Como fazer com que os artistas da bola possam ter longevidade sem que se transformem em gladiadores disformes? Sem que saiam de cena precocemente? Como ajudar a natureza sem violentá-la?
... que garotos franzinos e talentosos possam suportar pontapés impunemente. (último parágrafo)
O verbo flexionado nos mesmos tempo e modo que os do grifado acima está na frase: