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Banho de caneca
Não me canso, o angolano é o meu assunto favorito. Reparem bem, o lúcido afeto que lhe dedico é umbilical. E como o amor, ainda que cego, é exigente, não me furto a reconhecer que somos um povo subdesenvolvido com uma coragem arrebatadora, engenhoso no alto da sua miséria semi-institucionalizada, de sorriso aberto, mestre de esquemas e especialista na arte do banho de caneca. Desde muito cedo, desde o meu tempo da bola de gude e do bica bidon, que soube que o mundo cabe dentro de um alguidar com água, o mesmo no qual ainda hoje muitos chacoalham o seu amanhecer madrugador.
Ah, se essas bacias falassem! Realmente certas coisas são como andar de bicicleta, nunca se esquecem. Amanheci na minha Benguela materna e me bastou ver aquela bacia repousando ao lado da sua eterna companheira, a caneca, para que as memórias se tornassem palpáveis. Não há lar, seja ele um palácio ou um barraco de adobe e pau a pique, que não exiba esse indispensável utensílio. Tão democrático e unificador que até hoje me espanto porque é que ainda não foi consagrado a monumento, talvez monumento seja exagero, mas o alguidar e a caneca já mereciam um semba que lhes servisse de ode. Sim, porque não são só as classes menos favorecidas que se dedicam a esse ritual. Todo o lar, seja ele de um ministro, de uma zungueira e até, por ironia, de um funcionário das Águas de Angola, desde que tenham torneiras no silêncio, conhecem a arte do banho de caneca.
(Kalaf Epalanga, Minha pátria é a língua pretuguesa: crônicas, 2023)
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