///
Leia o texto para responder às questões de números 03 a 10.
Ninguém solta a bucha de ninguém
Antes de mais nada, é preciso lembrar que estamos no país mais ensaboado do planeta, com média de duas duchas diárias por cidadão. Crise hídrica alguma detém o frenesi de nossa toalete. De dinheiro público a calcinhas que são penduradas na torneira do box, lavamos de tudo um pouco.
Quando fui à Alemanha é que tive consciência do impasse diplomático deflagrado no lavabo de meu primo Klaus. “Aqui são loucos por sabonete líquido. Se compro em barra, me acusam de ser 50% brasileiro. Isso me cheira a xenofobia!”, sussurrou, desentocaiando um Palmolive© como quem tem ficha suja na Interpol.
De lá para cá, só balde de água fria. Segundo institutos de pesquisa, o Brasil é barra, mas o resto do mundo é cremosinho. 91% dos espanhóis preferem shower gel, assim como 85% dos italianos. Nos EUA e na Grã-Bretanha, bem mais da metade. Ou seja: vivemos numa bolha.
Para não dizer que somos 100% intolerantes à liquidez alheia, até fazemos uso de outros estados saponáceos da matéria. O pastoso, em dupla com a esponja de aço, no skincare das panelas.
Semana passada, voltando de viagem, tive enfim contato com a fina flor da resistência francesa em Marselha: seus perfumados paralelepípedos de lavanda, rosa, violeta, verbena. Vagando por becos, farejando feirinhas, me senti de alma lavada ao perceber que ainda existem outros como nós. Ninguém solta a bucha de ninguém.
(Bia Braune, “Ninguém solta a bucha de ninguém”. Folha de S.Paulo, 25.06.2023. Adaptado)
Vocabulário: Shower gel: gel de banho
Skincare: cuidados com a pele
A colocação pronominal atende à norma-padrão em: