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Resultado que acaba de ser publicado em uma prestigiosa revista científica faz um debate secular tender mais para o lado dos que acreditam que a violência letal praticada por humanos contra humanos está incrustada em nosso código genético, pois foi herdada de nossos ancestrais. Portanto, conflitos, genocídios e guerras não seriam apenas (e simplesmente) uma inovação cultural, mas, sim, resultado de algo que é parte indissociável de nossa natureza. Os humanos descendem de uma linhagem com um longo histórico de violência letal contra o próximo. Os chimpanzés, por exemplo, demonstram comportamento violento contra semelhantes.
O que está em jogo aqui são dois pontos de vista contraditórios que têm se arrastado por séculos ao longo da história: somos naturalmente violentos, como acreditava o filósofo britânico Thomas Hobbes (1599–1679) ou somos “neutros”, mas moldados pelo ambiente, como defendia o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712–1778)? Sintetizando: a violência letal e suas consequências seriam natureza ou criação?
Recentemente, esse embate causou chispas entre dois intelectuais de alto calibre: o filósofo político britânico John Gray e o psicólogo e linguista norte-americano Steven Pinker. O primeiro resenhou o livro do segundo. E aí começaram os atritos entre os dois. No livro, Pinker mostra – ou tenta mostrar –, por meio de dados, gráficos, tabelas etc., ou seja, pelo viés da estatística, que, ao longo dos séculos, a violência (guerras de grande escala, conflitos, genocídios etc.) está diminuindo. É a chamada “Longa Paz”. Na resenha, em essência, Gray repete algo que disse em entrevista a esta revista: “Não está havendo declínio na violência, apenas mudanças nos modos como ela está sendo cometida”.
Com uma espécie que talvez tenha matado cerca de 160 milhões de semelhantes só no século passado, fica difícil – sem hipocrisia, quase impossível – acreditar que não somos aquilo que Gray denomina a espécie mais rapinadora e bem-sucedida evolutivamente. Fica também difícil acreditar nas tabelas de Pinker e na noção de que “o amanhã será melhor”. “Um mundo sem a violência e a loucura da utopia é, em si, uma utopia; talvez, a mais inacreditável de todas elas”, disse Gray. Na Europa de meados do século passado, o tal mundo melhor propiciado pelo “progresso civilizatório” dos sociólogos e “avanços tecnológicos” dos humanistas virou escombros e ferro retorcido por bombas. Sobraram ossadas em larga escala.
Fica a questão para pensar: a paz é algo obtido pelo esforço dos pacifistas ou algo concedido – temporariamente – pelos belicistas?
No quarto parágrafo, o autor faz o comentário em destaque, isolado por travessão duplo. Esse comentário consiste em