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Biblioteca da infância
Eu era pequena, me lembro, no Bigorrilho. Na mesma rua que hoje virou um grande corredor de corrida de carros cada vez mais vorazes de velocidade, a vida passava em outro ritmo. Nessa rua brincávamos com os vizinhos, corríamos e apertávamos campainhas. Primeiro veio a grande notícia, uma praça, onde era a caixa d'água do Bigorrilho, hoje pomposamente chamado de Reservatório Batel. E a grande novidade se alastrou pela rua... onde ficávamos sabendo de todas as notícias do bairro. Inaugurou uma biblioteca!
Eu, já leitora voraz, assim como os carros nas ruas por velocidade, fiquei encantada! Éramos pobres, não viajávamos nas férias e, livros, eu só ganhava no Natal. Aquela pequena casinha que parecia antiga, amarelinha, ampliou meu mundo para além das ruas do Bigorrilho.
Hora do Conto, aulas de flauta, de cerâmica, o curso de História da arte espanhola, El Greco... Ainda lembro exatamente do quebra-cabeça com uma pintura de Arcimboldo. Foram tantas as referências, não só literárias, que me acompanharam a vida toda!
Eu lia dois livros por dia, não podia perder tempo, eram muitos... Emprestava um de manhã, lia durante o almoço, em casa. À tarde devolvia e logo pegava outro para a noite... A minha velocidade era outra. Eu passava minhas férias inteiras lá!
Cresci, frequentei outras Bibliotecas, a Pública do Paraná, principalmente, mas a Franco Giglio me acompanhou a vida toda. Ao visitar o Louvre, quando vi pela primeira vez uma tela de El Greco, aquele momento emocionante me remeteu diretamente à Roseli e suas aulas de arte.
Quando tive meus filhos e tentei descobrir qual herança eu deixaria para eles, pensei: minha infância dentro daquela maravilhosa biblioteca. E criei a Bisbilhoteca, que é a minha leitura da Franco Giglio, minha homenagem à biblioteca que me trouxe tanta alegria. E não longe da original, no Bigorrilho, mesmo bairro onde nasci e cresci.
E, para além da nostalgia de uma infância em meio aos livros e à cultura dentro da Franco Giglio, aquela biblioteca, assim como imagino que outras pela cidade, marcaram infâncias, proporcionaram outras leituras do mundo a muitos adultos que hoje produzem e transmitem essa paixão pelos livros a muitas outras crianças!
Passo quase todos os dias em frente à Franco Giglio e observo o abandono. No início achei que era por causa das obras da rua, mas logo se vê que aquela casinha de sonhos, tombada, está jogada à própria sorte. Não temos mais Suzanas e Roselis, apaixonadas por livros, crianças e cultura...
Temos pessoas que cumprem seu horário de trabalho. É certo que o mundo mudou e as crianças não andam mais sozinhas pelas ruas, que as pesquisas são feitas em casa, na internet. Mas a vocação de encontro e de lazer desses espaços públicos jamais deve ser perdida. As bibliotecas, Casas de Leitura como são chamadas hoje, devem ser abertas todos os dias, inclusive finais-de-semana, com uma programação atraente, trazendo crianças e suas famílias para desfrutarem do que jamais poderiam ter em casa: a convivência com o mundo da cultura e a convivência com outras pessoas.
(Cláudia Serathiuk)
Assinale a alternativa em que o pronome relativo sublinhado tem seu antecedente corretamente indicado.