///
Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro brotava do chão, mas não é verdade. Quando muito, caía do céu. Cândido e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes que é o nome daquele índio que Basílio da Gama cantou no Uraguai. Voltaire pegou dele para o meter no seu livro, e a ironia do filósofo venceu a doçura do poeta. Pobre José Basílio! tinhas contra ti o assunto estreito e a língua escusa. O grande homem não te arrebatou Lindoia, felizmente, mas Cacambo é dele, mais dele que teu, patrício da minha alma.
Na obra Cândido ou o otimismo (1759), do escritor francês Voltaire (1694-1778), Cacambo é o indígena que guia o protagonista Cândido pelo Eldorado (um lugar lendário e utópico no Novo Mundo). Dez anos depois (1769), Cacambo reaparece no poema épico O Uraguai, do poeta árcade brasileiro Basílio da Gama. Em 1904, o narrador do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, no trecho transcrito, faz referência a esses dois personagens e a seus autores.
Quando o narrador afirma que “Cacambo é dele, mais dele que teu”, pode-se inferir que o personagem Cacambo, criação de Voltaire anterior à de Basílio da Gama, reflete ironicamente a condição periférica do Brasil Colônia em relação à literatura das potências europeias no século XVIII.