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Uma pessoa azulada veio a mim e disse que não estava bem. Eu mentiria se falasse que me senti incomodado por se tratar de um completo desconhecido. Pois foi justamente daí que tirei o ânimo para sustentar o encontro. Poderia escolher, tranquilo, entre o sim e o não. Se virasse a cara e apressasse o passo, não me sentiria em desconforto por fugir de um inoportuno em desamparo. Folgadamente livre para decidir, como se essa condição fosse o meu conteúdo suficiente para aquele dia. Então fiquei e perguntei a razão de sua cor azulada, seu olhar mortificado, sua púrpura imaginação engalfinhando-se com céleres fantasmas. Tudo assim, duvidosamente antigo. A pessoa então tocou-me no braço. Era fria, de uma mudez marmórea. Então postei-me como uma estátua. E assim fiquei.
João Gilberto Noll. Mínimos, múltiplos, comuns. São Paulo: Francis, 2003, p. 67.
No texto, o vocábulo “azulada” (ℓ. 1 e 10) é empregado de modo ambíguo: remete ao estado visível de fraqueza do “desconhecido” (ℓ.3) e atribui a seu aspecto certa artificialidade.