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Siron Franco, artista plástico contemporâneo, realiza uma montagem em Brasília, em 1990, no Dia da Criança. A obra é uma bandeira brasileira feita de caixões coloridos de crianças, exposta em frente ao Congresso Nacional. Desconstrói, no coração do poder político brasileiro, o emblema da pátria e a imagem do Brasil como país do futuro.
A criança sempre foi vista como símbolo do futuro, como parte de um discurso ancorado tanto na retórica ufanista do texto político quanto no discurso cristão, responsável pela defesa de uma imagem de inocência infantil. Pautado pelo princípio teleológico do tempo, o presente irá atuar nesses discursos como instrumento de mediação para que se conserve a lição do passado como intocável e permanente. Da mesma forma, postula-se a projeção desses valores em direção a uma realização futura. O presente apenas se justifica como intermediário da passagem da tradição para os anseios da posteridade. A obra de Siron Franco revela-se, contudo, alheia a essa concepção moderna de tempo, ao capturar o retrato do presente, a mortalidade infantil, destituído de qualquer registro de fantasia. Na sua intenção de expor um problema, de forma horizontal e opaca, o objeto artístico inverte o projeto moderno que regeu a construção da capital do país, um “oásis” plantado no planalto central, como manifestação utópica do novo e do voo rumo ao progresso.
Eneida Maria de Souza. Brasília é uma estrela espatifada. In: Crítica cult. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, p. 142-3 (com adaptações).
O trecho “um ‘oásis’ plantado no planalto central” (ℓ.25) acrescenta uma explicação à expressão “projeto moderno” (ℓ.24).