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Entre os fatores que contribuem para a perda de qualidade de vida estão as péssimas condições de habitação e transporte no espaço urbano, que atingem sobremaneira a população empobrecida. A urbanização irresponsável causada pelo processo de industrialização e pela ausência de reforma agrária faz com que o direito de moradia e o de locomoção, ainda que direitos originários de necessidades humanas básicas, expressos na Constituição, sejam sistematicamente ignorados, o que compromete o descanso, o bem-estar e a paz dos trabalhadores nas grandes cidades. Em vista disso, os trabalhadores não podem sequer recompor diariamente suas forças.
Temos observado que os empregados dos postos de trabalho de pior remuneração são os que moram mais distantes dos locais de trabalho e cotidianamente saem de casa duas ou três horas antes da jornada, gastando o mesmo tempo para retornarem às suas casas. Causa-nos indignação constatar que esses empregados consomem o equivalente à metade do tempo remunerado (e mal remunerado) para o deslocamento de suas casas até o trabalho e em péssimas condições de transporte, sempre em pé nos ônibus superlotados, ou esperando em longas filas. Às vezes, ainda somos hipócritas, receitando para esses trabalhadores fórmulas para melhorarem de vida. Sugerimos que voltem a estudar para ocuparem postos mais qualificados e com melhor remuneração, mas, no fundo, sabemos que é impossível, para eles, dispor de tempo para cuidar da formação profissional perdida. Por outro lado, a classe média pode até se dar ao luxo de ter mais de um emprego, porque tem o seu próprio transporte, mesmo vivendo na ilusão de que, se trabalhar muito, poderá ganhar mais e acumular dinheiro, para, um dia, enfim, poder curtir a vida. Só que, para muitos, esse dia não chega; as doenças modernas chegam primeiro.
Cabe aqui acrescentar outras necessidades humanas que têm sido sistematicamente relegadas a segundo plano. São elas os valores culturais, que incluem os saberes, as paisagens naturais, os costumes e as tradições populares. A urbanização acelerada em todo o mundo foi a responsável pela perda da qualidade de vida de muitos trabalhadores, apesar de aparentemente ter criado melhores condições de vida para parte da população.
O termo “relegadas” (l.35), no texto, tem o mesmo sentido de renegadas.