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Portugal, janeiro de 1872.
Registremos esta preciosa declaração do chefe da oposição. Vamos guardá-la, como uma joia — em algodão. O Sr. Luciano de Castro, chefe da oposição, fez, no relatório que precede o seu projeto de reforma administrativa, uma exposição sombria da administração do país.
Aí confessa que acabou a fé política e a dignidade política; que não existem partidos com ideias, mas facções com invejas; que o país está desorganizado e entregue ao abandono; que cada reforma cai, sucessivamente, a cada governo; que as leis são um aparato de eloquência parlamentar, e não uma eficácia de organização civil... Enfim — que o país chegou à última decadência administrativa.
Registremos esta confissão sincera do Sr. ministro do Reino. Vamos guardá-la, como um bicho precioso — em espírito de vinho.
O Sr. Sampaio, ministro do Reino, no relatório do seu projeto de reforma administrativa, declara que a administração, como está, é uma confusão vergonhosa, uma desorganização funesta, um abandono mortal... Enfim — que o país chegou à última decadência administrativa.
Resultado: o ministro do Reino e o chefe da oposição declaram, oficialmente, o país num estado deplorável de administração.
Ora, nem a reforma do Sr. Luciano se efetuará, nem a reforma do Sr. Sampaio se realizará.
De tal sorte, que resta? Que estamos num abominável estado de administração — segundo confessa o governo e segundo confessa a oposição: e que ficamos nesse estado!
É risonho.
Eça de Queirós. As farsas. Uma campanha alegre. Porto: Lello&Irmão, 1978, p. 51-2 (com adaptações).
Assinale a opção correta no que se refere a aspectos relativos a tipologia textual, gêneros textuais e sentidos do texto.