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Sr. Leitor Não fui, e não sou, um escrevedor de cartas. Acredito que, no momento em que você estiver lendo esta mensagem, meus sentimentos a respeito dela e, muitas vezes, em relação a você podem ter mudado e isto me obrigaria a escrever outra mensagem para explicar a mudança e assim sucessivamente, em uma troca de correspondência absurda. Com o telefone, a comunicação ficou mais fácil, mais direta. Não gosto de falar ao telefone, mas, em minha juventude, contaminado por uma timidez excessiva que me impedia as investidas ao vivo, confesso um pouco envergonhado, já o utilizei para conquistas, cantadas, declarações de amor. O tempo passou e, agora me dou conta, passo dias sem pegar no telefone e, na maioria das vezes, nem o atendo quando toca. Ele é coisa do passado. Em compensação surgiu o email, isto é, a volta às cartas. São cartas virtuais, mas, como nas de antigamente, sempre podemos escrever um parágrafo, parar, tomar um café, recordar um fato, uma conversa, uma declaração de amor. Tudo isto com a vantagem de deixar o texto descansando até que a emoção acabe, ou diminua; e podemos corrigir os erros de português e de ansiedades. Estará voltando a epistolografia? O maior epistológrafo (que palavra horrível!) de todos os tempos foi, sem dúvida, São Paulo. Há quem diga que suas epístolas deram origem à Educação a Distância, já que ele difundia o cristianismo por meio de cartas para seus discípulos que moravam em cidades distantes como Éfeso, Corinto, Roma etc. No passado, a carta era tema de obras literárias, músicas etc., etc. Temos vários e belos contos e romances que são epistolares. Dostoievski e Goethe usaram este método que já foi dado como acabado e agora volta com força total — via Internet. E aqui abro um parêntese para dizer que é epistolar um dos mais belos, vigorosos e cruéis romances que li ultimamente, A Caixa Preta, do escritor israelense Amoz Oz. Na música, em minha adolescência, me comovia com a voz de Dalva de Oliveira cantando “Quando o carteiro chegou/e meu nome gritou/com uma carta na mão/ante surpresa tão rude/não sei como pude/chegar ao portão...”.
A ordem das palavras nos sintagmas nominais “timidez excessiva” (l.10), “cartas virtuais” (l.17) e “obras literárias” (l.30) confirma a regra de que, em geral, no português, o adjetivo vem posposto ao substantivo, principalmente quando restritivo.