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Ficava deitado na cama, sentindo-me infeliz, chorando com pena de mim, e chorar era uma espécie de lenimento para a minha alma. Eu assumia todas as culpas. Era culpado por Armande ter se corrompido, por ter se casado com um ator medíocre; culpado por não ter ajudado Marie-Madeleine a se livrar da maldade que a pervertia; culpado por ter tratado com hipócrita condescendência mulheres que de fato desprezava; culpado por ter deixado Molière morrer abandonado. Pensei em morrer. Lembrei-me de um pensamento de Montaigne que diz ser a morte voluntária a mais bela; a vida depende da vontade de outrem, a morte, da nossa.
Até que um dia, não sei quanto tempo durou essa minha angústia, entrei na biblioteca do meu pai e apanhei na estante os ensaios de Michel de Montaigne. Abri uma página ao acaso e li uma frase que dizia ser um sinal de fraqueza, e não de virtude, ir agachar-se sob o túmulo a fim de escapar dos golpes do destino. Percebi, enquanto relia o seu livro, que o grande pensador era contraditório, tinha dúvidas, não era imune ao sofrimento, e mais: tinha preconceitos, era injusto nos seus julgamentos, tinha suas fraquezas e imperfeições, mas sabia que isso não o tornava menos humano e digno. Não sei dizer que ensinamentos tirei da leitura. O certo é que, seja qual for o motivo da minha transformação, um dia fui a uma das baias, selei um alazão e com ele percorri as terras de meu pai. E na volta da cavalgada, comi com um apetite que havia muito tempo não tinha.
Poucos dias depois eu voltava para Paris. Meu objetivo era descobrir quem, afinal, havia envenenado Molière.
A substituição da forma verbal “tornava” (R.21) por tornasse preservaria as regras gramaticais bem como a coesão e a coerência do texto.