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Quando começa a modernidade? Bem antes que tentassem me convencer de que a data de nascimento da modernidade era um espirro cartesiano, ou então novo interesse empírico pela natureza que transpira das páginas do Novum Organum de Bacon, ou ainda a abertura dos primeiros bancos — bem antes de tudo isso, quando era rapaz, se ensinava que a modernidade começou em outubro de 1492. Nos livros da escola, o primeiro capítulo dos tempos modernos eram e são as grandes explorações. Entre elas, a viagem de Colombo ocupa um lugar muito especial. Descidas Saara adentro ou intermináveis caravanas por montes e desertos até a China de nada valiam comparadas com a aventura do genovês. É preciso conceber o alcance simbólico do pulo além de Gibraltar, não pela costa, mas reto para frente. É preciso, em outras palavras, evocar o mar Mediterrâneo — esse pátio comum navegável e navegado por milênios, espécie de útero vital compartilhado — para entender por que a viagem de Colombo acabou e continua sendo uma metáfora para o fim do mundo fechado, do abandono da casa materna e paterna.
Havia duas ordens de explicações para as grandes descobertas e para a viagem de Colombo. A materialista não faltava nunca: procura de novas riquezas e necessidade de conquistas. Outra, mais ideológica, ou mesmo idealizada, também sempre presente, atribuía o empreendimento ao indomável desejo de saber e conhecer novas coisas. Aqui, Dante era regularmente convocado em sua descrição da última viagem de Ulisses que, apesar de ter tanto desejado voltar para sua casa e família, toma de novo o caminho do mar aberto.
Dante escreve quase um século e meio antes da viagem de Colombo, logo quando o espírito da modernidade produzia a dita segunda Renascença. E ele é certamente um dos ideólogos da modernidade. A visão dantesca de Ulisses é quase uma declaração de intenções do sujeito moderno e, portanto, uma espécie de explicação antecipada da viagem de Colombo. O herói de Homero volta para seu lugar após os longos anos do sítio de Troia e 10 anos de Odisseia; ele volta para o lugar onde sua legitimidade de rei, esposo e pai é atributo eterno de seu ser e onde, apesar da longa ausência e dos usurpadores, ele sempre será reconhecido. Já o Ulisses moderno de Dante se cansa desse lugar demasiado “seu” e deixa reino e família para embarcar com poucos amigos em uma viagem sem destinação e sem volta. Ulisses retoma a estrada ou, melhor dito, o oceano para, segundo o poeta italiano, conhecer o mundo, os vícios humanos e o valor. Esse objetivo pode ser entendido de duas maneiras.
Por um lado, tem-se a paixão de descobrir vícios e valores de outros homens — uma espécie de curiosidade antropológica especificamente moderna. Por outro lado, os vícios e o valor atrás dos quais correm Ulisses e seus companheiros podem ser seus próprios. Nesse caso, Ulisses abandona o lugar que a tradição lhe garante (como rei e pai) para descobrir algo de si mesmo que estaria além de suas funções sociais garantidas e que estaria menos no passado e no presente e mais em um futuro a ser inventado.
As formas verbais “tentassem” (R.2) e “se ensinava” (R.6) indicam ações realizadas por sujeitos que permanecem indeterminados no texto, assim como a forma verbal “É” (R.14).