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Eu sempre disse que John Maynard Keynes viverá enquanto o mundo precisar dele. O que o mundo decidiu, 30 anos atrás, foi que não precisava mais de Keynes: o sistema de mercado se autocorrigia automaticamente; o keynesianismo só levava à inflação.
A grandeza de Keynes, e, na verdade, a sua singularidade como economista, é o fato de ele ter sido mais do que um economista. Além de ser um brilhante teórico e um grande administrador, ele foi o único poeta da natureza humana na área da economia. Ele tentou colocar a sua poesia a serviço da ciência e das políticas de governo. Mas tal proposta não se adequava bem à realidade, conforme ele próprio reconheceu em parte. A parte poética e a científica da sua teoria eram discordantes. Assim, a poesia foi extirpada, e, com isso, a sua ciência também veio abaixo.
Assim que a ciência de Keynes se foi, restou pouco ou nada das políticas keynesianas: tudo o que é necessário à economia é um sistema bancário central, cujos princípios são bem anteriores à economia de Keynes.
Entrevistador: Segundo seu livro, a “storytelling” (narração de histórias) passou a ser adotada do marketing de produtos à comunicação política. Por que a política hoje se volta para a emoção mais do que para o intelecto ou a razão?
Christian Salmon: Apresentadas sob a forma de um enredo fácil de compreender, as implicações da política mobilizam emoções como o medo, a solidão, a necessidade de proteção. Os cidadãos são jogados em um universo narrativo (a cruzada contra o eixo do Mal etc.) e convidados a escolher entre os “bons” e os “maus”.
Entrevistador: O senhor escreve que a realidade de uma concorrência cada vez mais feroz o neogerenciamento opõe a ficção de que, no trabalho em equipe moderno, os empregados não estão verdadeiramente em concorrência uns com os outros. A essa ficção soma-se outra, ainda mais importante, a saber, que os operários e os patrões não são antagônicos. O patrão gera apenas um processo de grupo. Isso seria um novo modelo de capitalismo e de controle?
Christian Salmon: No livro Vigiar e Punir, Michel Foucault mencionava a constituição de um “poder de escrita” como uma peça essencial no encadeamento da disciplina militar, sanitária, escolar etc. Pode-se ver no triunfo da “storytelling” o cidadão doutrinado, mas um “poder de narrativa” capaz de assegurar o controle de indivíduos, uma “máquina de contar” e formatar bem mais eficaz que todas as imagens orwellianas da sociedade totalitária.
O assunto dessa nova ordem narrativa não é nem o consumidor alienado, nem o trabalhador explorado, nem mesmo o cidadão doutrinado, mas um indivíduo enfeitiçado, imerso num universo, preso a uma rede narrativa que filtra as percepções, estimula os efeitos e conduz as condutas.
As aspas em ‘bons’ e ‘maus’ (ℓ.10), de certa forma, expressam a visão de Christian Salmon de que essas categorias, juntas, abarcam todo o conjunto da humanidade e que são excludentes entre si.