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A história de uma vez: um olhar sobre o contador de histórias indígena
Nem lembro direito quando comecei a ouvir
histórias. Ou se algum dia teve um começo. O que
sei de verdade é que sempre me senti dentro de
uma história contada por muitas vozes. Talvez isso
tenha sido a razão principal por que sempre me
sentia muito seguro vivendo dentro de minha
comunidade, ainda que desconfiasse das coisas que
me eram ditas.
Eu poderia começar contando do começo,
mas essa é uma forma muito comum de contar
algo. É o modo ocidental de contar uma história.
Começar do começo é sempre caminhar por um
caminho linear, e nos ensinaram a pensar sempre
obedecendo a esse caminho. É como se não
houvesse outro possível. Aliás, há outros tantos
possíveis, mas nos acostumamos a seguir uma
lógica epistemológica: o ser e o não ser não é. Um
axioma que traz duas verdades aparentemente
absolutas: se eu afirmo algo, sua negação é
impossível. Simples assim.
Acontece que as histórias nem sempre
seguem um rumo lógico. Às vezes elas seguem um
caminho que passa longe da compreensão mental.
Elas questionam, indagam, divagam, interrogam,
constroem ou destroem; consertam ou estragam;
dilaceram ou unem mundos. Fazem isso porque
costumam contradizer o que está posto ou o que é
senso comum.
Demorei muito para entender isso. Outro
tanto para compreender a emoção que costuma
tomar conta de quem sabe ouvir histórias.
Observando comportamentos, atitudes, emoções,
intuí algo maravilhoso: somos movidos pela
magia. Ela não está fora, dentro de cada ser. Ela é o próprio
ser. Infelizmente somos “educados” a abrir mão da
magia no dia em que entramos na escola. Vendo
crianças tão pequenas se esgoelando para não se
separarem da mãe no primeiro dia de aula me
ocorreu uma verdade cruel: é o dia da separação
entre a magia e o real. A escola vai arrancar de
nossos corpos o que trazemos de mágico, de
desconhecido, e em seu lugar vai colocar o
conhecido. Nesse dia passamos a nos adequar ao
sistema lógico que nos vai ensinar “ser alguém”.
Nunca mais seremos nós mesmos, seremos sempre
alguém buscando alguém. A magia cede lugar a um
princípio que escamoteia nosso desejo mais íntimo
pela verdade: somos seres originados de uma
matéria cósmica. Somos parte do universo, e não
seus donos.
No trecho “[...] mas nos acostumamos a seguir uma lógica epistemológica [...]” (linhas 56-57), a palavra em destaque é acentuada pela mesma regra de