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Difíceis identidades contemporâneas
Às vezes, nossa existência nos pesa. Mesmo que por algum tempo tenhamos vontade de nos livrar das necessidades ligadas a ela, de tirarmos férias de nós mesmos para tomar fôlego, descansar. Embora nossas condições de vida sejam, decerto, melhores do que as de nossos ancestrais, elas não nos eximem do essencial que consiste em dar significado e valor à existência, em nos sentirmos ligados aos outros, em experimentar o sentimento de ter um lugar no seio do vínculo social. A individualização do sentido, ao libertar das tradições ou dos valores comuns, desvincula de toda autoridade. Cada um se torna seu próprio dono e só precisa prestar contas a si mesmo.
O desmantelamento do vínculo social isola cada indivíduo e o entrega à sua liberdade, à fruição de sua autonomia ou, ao contrário, a seu sentimento de insuficiência, a seu fracasso pessoal. O indivíduo que não dispõe de recursos interiores sólidos para se ajustar, dar significados e valores aos acontecimentos, que não tem autoconfiança suficiente, sente-se ainda mais vulnerável e é obrigado a firmar-se por si mesmo, já que não encontra apoio na comunidade. Muitas vezes ele mergulha em um clima de tensão, de inquietude, de dúvida, que torna difícil sua vida. Nem sempre ele consegue encontrar prazer em viver.
Muitos de nossos contemporâneos aspiram ao alívio da pressão que pesa em seus ombros, à suspensão do esforço constante para continuar sendo eles mesmos ao longo do tempo e das circunstâncias, sempre à altura das exigências para consigo mesmos e para com os outros. Mesmo quando nenhuma dificuldade pesa, pode emergir a tentação de desligar-se de si mesmo – nem que seja por algum tempo – para fugir das rotinas e preocupações. Qualquer desobrigação é bem-vinda; ela permite desapegar-se por um instante.
Em uma sociedade onde se impõem a flexibilidade, a urgência, a agilidade, a concorrência, a eficácia etc., ser si mesmo já não é algo evidente, visto que a todo instante urge expor-se ao mundo, adaptar-se às circunstâncias, assumir a autonomia, estar à altura dos acontecimentos. Já não basta nascer ou crescer, é preciso construir-se permanentemente, manter-se mobilizado, dar sentido à vida, fundamentar suas ações nos valores.
A tarefa de individuação é árdua, sobretudo quando se trata de ser exatamente si mesmo. Encontrar os suportes de sua autonomia e bastar-se a si mesmo não são um dado evidente. Nem todos os indivíduos dispõem das mesmas capacidades. “Se as exigências morais se abrandaram, as coerções psíquicas invadiram o cenário social: a emancipação e ação alargam desmedidamente a responsabilidade individual, elas aguçam a consciência de ser tão somente si mesmo [...]. Por isso, a insuficiência é para a pessoa contemporânea o que o conflito era para a primeira metade do século XX” (EHRENBERG, 1998: 276). O indivíduo fica doravante sem orientação para se construir, ou melhor, se vê diante de muitas possiblidades e entregue a seus recursos pessoais. Essa falta de apoio social e ausência de regulação exterior nem sempre facilitam o acesso à autonomia. No entanto, todo indivíduo é responsável por si próprio, mesmo que lhe faltem meios econômicos e, sobretudo, simbólicos para assumir uma liberdade que não escolheu, mas que lhe é outorgada pelo contexto democrático de nossas sociedades. E, nessa busca, ele está sozinho. Ele já não dispõe à sua volta, como outrora, de um quadro político para se afirmar em uma luta comum, já não é mais apoiado por uma cultura de classe e por um destino compartilhado com outros.
Estar sob sua própria autoridade implica recursos interiores continuamente renovados, pois ela é fonte de inquietação, de aflição e mobiliza um esforço constante. A identidade tornou-se uma noção essencial para o questionamento de cada indivíduo e de nossas sociedades, mas hoje ela está em crise e alimenta uma “incerteza radical quanto à continuidade e à consistência de si mesmo” (GAUCHET, 2004: 257). A transparência desapareceu entre as diferentes formas de socialização e de subjetividade. Manter seu lugar no seio do vínculo social implica uma tensão, um esforço.
Considerando o modo de organização linguística e textual, “Difíceis identidades contemporâneas”, de David Le Breton, é um texto predominantemente