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A VOZ DO OUTRO
Quarenta e três anos separam a publicação de “O outro”, de Rubem Fonseca, e “Espiral”, de Geovani Martins. A seiva de raiva e rancor que irriga e alimenta as fronteiras entre ricos e pobres no Brasil continua, no entanto, a correr acelerada entre os dois contos ambientados no Rio de Janeiro.
Os protagonistas de “O outro” e “Espiral” não têm nome. São definidos por seu lugar na cidade: o primeiro, um executivo estressado que vive para o trabalho e, entre casa, carro e escritório, pouco anda na rua; o segundo, um adolescente que circula a pé e de ônibus entre a Gávea, bairro de classe média alta onde estuda numa escola pública, e a Rocinha, sobressaltada comunidade onde vive.
O executivo de Rubem Fonseca tem medo, o menino de Giovani Martins, também. O executivo tem medo de gente como o menino. O menino tem medo de quem, como o executivo, olha para ele com medo. O medo é pai da raiva; a raiva, mãe da covardia, como lembra Chico Buarque em “As caravanas”. É nesse fogo, nada brando, que o Rio ferve há pelo menos quatro décadas.
No conto de Rubem Fonseca – publicado em Feliz ano novo em 1975 e censurado pela ditadura um ano depois – um homem pobre sai da invisibilidade ao interpelar o executivo: “Doutor, doutor, será que o senhor podia me ajudar?”. Coração na boca, sentindo-se ameaçado, ele responde estendendo “uns trocados”. Dali para a frente, sucessivos pedidos de ajuda lhe parecem emboscadas. ”Súplice e ameaçador”, o pedinte é, a seus olhos, um inimigo. Adversário que, um dia, flagra na porta de casa. É ali no limiar de seu território, de sua propriedade, que decide dar fim de uma vez por todas ao “outro” que tanto o atormenta.
O personagem de Geovani Martins se “assustava com o susto” de quem o via como “a ameaça”. Prendia o choro, humilhado, até perceber que o jogo nem sempre estava jogado. Passaria ele mesmo a ameaçar, com sua ostensiva presença, os meninos do colégio particular caríssimo ou senhora que poderia ser sua avó, e, ao percebê-lo, agarrava-se à bolsa. Com o tempo, concentra-se num único homem, Mário, a quem assombra com zelo de especialista. [...]
Rubem Fonseca tem 92 anos, Geovani Martins, 26. Os dois estrearam com notáveis livros de contos – Os prisioneiros é de 1963 e O sol na cabeça, em que figura “Espiral”, foi lançado no início deste ano. Um e outro representam, em seus respectivos momentos, rupturas.[...]
[...] Ler Geovani Martins no espelho de Rubem Fonseca é encarar de frente “o outro”, que de exterminado nos anos 1970 vira hoje protagonista e narrador. E o faz de igual para igual, olhando no olho. Pelo menos na literatura. (Época, 30/04/2018).
Verifique o emprego dos pronomes nos fragmentos textuais abaixo arrolados e, em seguida, marque a alternativa na qual o pronome destacado é classificado como RELATIVO.