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Abismos
Ninguém está livre de tentações absurdas. De, subitamente surpreender a si mesmo com um ato inexplicável ou ceder à sedução do abismo. Uma pessoa “normal”, seja isto o que for, resiste às tentações. O ato doido imaginado nunca passa disso, imaginação. Ou então seu mergulho no abismo é um gesto solitário, sem efeitos colaterais. O moço que jogou aquele avião contra as montanhas na França (até o momento em que escrevo não apareceu nenhuma outra explicação para a tragédia) levou 150 pessoas com ele para seu abismo particular. Ele teria problemas psicológicos, mas nada que o impedisse de comandar um avião, segundo a Lufthansa. Pelo menos para a Lufthansa, ele era uma pessoa “normal”.
Só se pode especular sobre a sua ação. Como não tinha como prever a saída do piloto do seu lugar, ele provavelmente não havia planejado fazer o que fez. De repente, se viu sozinho na cabine de comando, com o avião nas suas mãos. Talvez tenha se autoinebriado com a enormidade do que poderia realizar. Cento e cinquenta pessoas, 150 destinos – nas suas mãos. Não seria uma simples destruição, mas um suicídio compartilhado, uma obliteração em massa. Nos poucos momentos que durou a queda induzida do avião, ele deve ter se sentido como um deus, todo-poderoso e sem remorso. Mas sabe-se que sua respiração não se alterou durante a queda. Ele foi “normal” até o fim.
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As palavras “autoinebriado” (linha 9) e “obliteração” (linha 10) podem ser substituídas no texto, sem prejuízo do sentido e fazendo os devidos ajustes linguísticos, respectivamente, pelas palavras: