///
Criados com esgoto a céu aberto, pesquisadores brasileiros mostram ao mundo relação entre saneamento e a Covid-19
Nem sempre a mudança que queremos ver no mundo vem de “grandes heróis” ou de governos profundamente comprometidos com a agenda climática. Na maioria das vezes, histórias inspiradoras residem ao nosso lado, guardadas e vividas por pessoas que dentro da sua área de atuação decidem fazer o que está ao seu alcance para ver a transformação que desejam no Planeta.
As regiões Norte e Nordeste do país são palco de uma dessas histórias que conscientizam, inspiram e engajam. E os protagonistas são dois brasileiros que acabam de publicar um artigo sobre a relação entre a falta de saneamento básico e a Covid-19 na Springer Nature, uma das maiores e mais renomadas editoras científicas do mundo.
Estudantes de universidades públicas, James Thiago Cruz (Mestre em Desenvolvimento Sustentável), de Belém do Pará, e Erleyvaldo Bispo (Graduando em Engenharia Florestal na UFRRJ), de Lagarto, Sergipe, se basearam em sua realidade local para buscar soluções para a falta de saneamento básico. No estudo, eles alertam as populações e os governos dos impactos da ausência de água encanada e limpa e esgotamento sanitário, e da relação dessas carências com a expansão do novo coronavírus.
O artigo foi desenvolvido, escrito e traduzido para o inglês entre abril e junho de 2020, retratando aquele período da crise sanitária no país. A dupla partiu de uma percepção trazida por estudos internacionais de que o SARS-CoV-2 poderia ter sua transmissão potencializada pela água não-tratada, visto que outros coronavírus antecessores já eram transmitidos por via entérica, ou seja, oral e fecal.
“A falta de água dificulta o atendimento a medidas de higienização como a lavagem adequada das mãos, lavagem de utensílios domésticos coletivos etc. E os estudos científicos comprovavam a sobrevivência do coronavírus em água de esgoto entre uma e duas semanas, inclusive, em águas de esgoto da Holanda, foi identificada a presença do SARS-CoV-2 antes mesmo de a pandemia eclodir na China”, explicou James.
A pesquisa evidenciou que as regiões brasileiras com maior número de óbitos e índice de transmissão da Covid-19 eram aquelas cuja população tinha menos acesso à água limpa e saneamento básico.
“Nosso objetivo era justamente dar visibilidade a essa agenda que é um direito básico dos cidadãos, mas que infelizmente não está sendo garantido a todos no Brasil. Nós somos 70% água, desde o útero de nossa mãe estamos cercados por ela, precisamos valorizar esse bem comum, inclusive a nível educacional”, provoca Erley.
O pesquisador e ativista também defende a importância de promover a resiliência dentro das comunidades por meio de informação e incentivos para que todos pensem em soluções inovadoras para este nocivo problema.
Segundo James, estimular a adoção de políticas públicas e ações por parte da iniciativa privada relacionadas ao saneamento é fundamental. “Com o nosso trabalho queremos estimular movimentos sociais e startups a desenvolverem alternativas e soluções criativas em comunidades que carecem do acesso à água limpa e de qualidade. Também desejamos dar visibilidade às inovações que já estão sendo realizadas no país bem como fomentar o desenvolvimento de novas tecnologias sociais”, pontua.
A dupla realizou a coleta e análise de dados sem apoio público ou patrocínio algum, todo investimento na pesquisa partiu de recursos pessoais dos pesquisadores. E este não foi o único desafio enfrentado.
“Nós fizemos tudo isso durante o auge da pandemia, por isso, não pudemos realizar o trabalho de campo como gostaríamos, com entrevistas etc. Toda coleta de dados dependeu de um bom acesso à internet para conseguirmos as informações que já estavam disponíveis em outros estudos científicos”, comentou James. Como muitos brasileiros, o pesquisador ainda teve de lidar com desafios emocionais, como crise de pânico e ansiedade, que fizeram parte de sua vida durante a quarentena.
Os dois rapazes estão transformando desafio em aprendizado e resiliência. Mais importante: passam tudo isso adiante. “Nós queremos estimular jovens da periferia bem como as comunidades mais vulneráveis a enxergar o seu potencial de transformar o mundo. Todos têm voz e têm vez”, crava James.
(Adaptado de GASPARINI, Nicole. https://umsoplaneta.globo.com/energia. 17 jun. 2021. Acesso em 25/10/2021.)
“O artigo foi desenvolvido, escrito e traduzido para o inglês entre abril e junho de 2020, retratando aquele período da crise sanitária no país” (4º parágrafo).
O termo em destaque foi utilizado para