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Isenção de ânimo
Tendo comprado um apartamento, foi à repartição dar entrada nos papéis requerendo isenção do imposto de transmissão. Um funcionário pálido e de bigodinho antipático o atendeu. Depois de examinar os documentos, sorriu sadicamente:
_ O senhor não vai conseguir isenção.
_ Posso saber por quê?
_ Porque – explicou o homenzinho, juntando os dedos no ar e escandindo as palavras com precisão – estou aqui para selecionar os papéis.
_ Isso não quer dizer que eu não consiga a isenção.
_ Perdão: e quem disse que os seus papéis estão em ordem?
_ Então examine e veja se não estão.
O funcionário começou a examinar meticulosamente os papéis com um sorriso de quem diz: “Já lhe mostro... Já lhe mostro...” E mostrou mesmo: _ Olhe aqui: falta reconhecer a firma deste documento.
Continuou a procurar, mas não encontrou qualquer outra irregularidade.
_ Ainda assim, posso assegurar-lhe que não vai conseguir – afirmou, com delicadeza profissional.
_ Não vou conseguir por quê?
_ Não se exalte. Não se exalte. Estou aqui para selecionar...
_ Pois se não conseguir vou à Justiça, faço valer os meus direitos. O senhor vai ver só.
_ Duvidê-ó-dó... – suspirou o funcionário.
E voltou-se polidamente para outro cidadão que esperava a sua vez: _ O senhor? Em que posso ser útil?
_ Dar entrada nestes papéis – disse o homem com truculência.
_ Isenção? Deixa ver aqui... O senhor não vai conseguir.
─ Por quê?
_ O documento diz aqui: “Por ter servido durante a guerra...” servido! e não prestado serviço. Meu amigo, há uma diferença entre servir e prestar serviço. Servir é compulsório; prestar serviço quer dizer: fazer algum serviço vo-lun-ta-ria-men-te. O senhor não vai conseguir.
_ Se não conseguir, eu pago o imposto – resignou-se o homem.
_O problema é seu – encerrou o funcionário: ─ Estou aqui para selecionar os papéis.
(Adaptado de SABINO, Fernando. In: A mulher do vizinho. 9 ed. RJ: Record, s/data, p.42-44.)
“Tendo comprado um apartamento, foi à repartição dar entrada nos papéis requerendo isenção do imposto de transmissão” (1º parágrafo).
A oração destacada acima pode ser substituída, sem perda de sentido por,