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Texto 1
Um exemplo de ignorância
Um dos temas mais instigantes relacionados com a linguagem pode ser resumido na seguinte pergunta: como a linguagem expressa a ideologia dos falantes? A pergunta é essa mesmo: como se expressa a ideologia. O que significa assumir que há uma relação entre linguagem e ideologia. O que torna a questão mais complexa são o número e a forma dos mecanismos responsáveis por tais manifestações.
Os exemplos mais evidentes de expressão de ideologia pela linguagem são as afirmações explícitas sobre classes, etnias, sexos etc. Por exemplo, no Brasil, os sulistas com muita frequência enunciam como se fossem verdadeiros certos pontos de vista ideológicos sobre os nordestinos que certamente são muito discutíveis (“eles são preguiçosos”, “eles só pensam em diversão” etc.). Quando as afirmações são claras como essas, a ideologia também é clara. Mas há outras formas de expressar a ideologia. Pesquisas sobre conversações entre homens e mulheres revelam, entre outras coisas, que os homens interrompem a fala das mulheres muito mais frequentemente do que as mulheres interrompem a fala dos homens; além disso, muito raramente os homens fazem às mulheres perguntas que revelam seu interesse pelos tópicos de seus discursos, isto é, pelos assuntos que elas propõem. Esse comportamento pode ser interpretado como significando que os homens acham que “o que as mulheres têm a dizer é pouco importante”, o que, por sua vez, é uma forma de retomar uma velhíssima afirmação sobre a inteligência feminina ser menos privilegiada que a masculina. Pura ideologia, no sentido de falsa representação da realidade.
Outra maneira de expressar ideologia através da linguagem, talvez a mais brutal de todas, é atribuir a certos falantes a incapacidade de falar. A mais eficaz dessas formas é representar sua fala através de formas linguísticas “erradas”, desprestigiadas, estranhas ou inverossímeis. Isso é muito comum nas piadas. Piadas sobre políticos representam sua suposta burrice através de uma fala que seria uma fala de ignorantes. Por exemplo, sobre Quércia circularam piadas que o apresentavam como um caipira, que, já na infância, teria sido um fracasso. Por isso, quando a professora lhe pediu que fizesse uma frase com “hospedar”, ele teria respondido: “Os pedar de minha bicicreta tá quebrado”, em vez de, como outros meninos, responder coisas como “a função dos hotéis é hospedar os viajantes”.
Na página 17 do número 1.326 da revista IstoÉ, uma simples manchete revela uma profunda ignorância e um brutal preconceito. De fato, talvez se possa até dizer que o preconceito é fruto da ignorância. Mas o fato é que a ideologia produz, como um dos seus efeitos, que certas coisas não sejam estudadas, ou, se estudadas, que o resultado dos estudos não circule em larga escala. É o que acontece, por exemplo, em relação a muitas formas linguísticas, em especial em relação às línguas que por muito tempo foram chamadas de primitivas. Pois bem, a mencionada revista colocou a manchete “MIM, ATLETA” como chamada para uma notícia sobre jogos indígenas no Mato Grosso do Sul. Ora, representar a fala dos índios com formas como essa equivale, pura e simplesmente, a dizer que índios nem sabem falar. IstoÉ revelou com tal manchete sua posição pré-copernicana – comum a outros meios de comunicação e a muitos cidadãos supostamente bem formados – no que se refere a informações elementares sobre o que sejam línguas e sobre o que essa concepção significa como qualificação de seus falantes. Consciências podem ficar mais tranquilas escravizando africanos se eles não tiverem alma. Ou eliminando povos indígenas, se índios nem souberem falar.
POSSENTI, Sírio. A cor da língua e outras croniquinhas de linguista. Campinas: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil – ALB, 2001, p. 71-73.
Com base no Texto 1 e na norma padrão da língua portuguesa, é correto afirmar que: