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Uma das coisas que eu mais gosto na moda é a capacidade que ela tem de me fazer mudar de opinião. Um dia, morro de rir da cintura alta. Algum tempo depois, posso circular de cintura alta por aí, me sentindo muito bonita, obrigada. Mudar de opinião é algo que fazemos pouco na vida. Mudar de opinião pode ser admitir que outrora estivemos errados. Na moda, não. Na moda, mudar de opinião significa apenas que entramos no provador para experimentar.
A moda ensina que, dentro de um novo vestido, tudo pode parecer diferente. E mostra que, muitas vezes, temos o péssimo hábito de julgar antes de conhecer. E somos nós que saímos perdendo. O vestir pode funcionar como esse necessário exercício de flexibilidade, que serve para outros setores da vida. Um jeito de manter o espírito jovem, já que é na rigidez da mente que começa a verdadeira velhice.
Se a moda nos oferece essa flexibilidade, no mundo das ideias as coisas parecem caminhar de maneira oposta. Outro dia um amigo recebeu uma visita no escritório e ofereceu um café. O convidado, sem o menor constrangimento, fechou a cara e disse que era “contra” a tal marca de café [...]. Não convém citar o nome da marca nem do amigo, mas essa atitude tem nome: falta de educação. Não seria melhor dizer um bom e simples “Não, obrigado”?
Exibir causas e filosofias parece ser a mais nova forma de ostentação. Ter valores em que acreditamos é admirável. Seguir a vida em consonância com eles é coerente e justo. Mas sair por aí bradando suas escolhas aos quatro ventos é radicalismo e é chato – e a chatice vai contra a minha filosofia. Devagar com suas certezas, amigo. Que eu quero passar com as minhas dúvidas. Quem disse que tenho sempre uma opinião? Todo mundo tem o direito de não ter uma, concorda? (Fique à vontade, não precisa me responder agora.)
Tenho uma amiga que adora perder uma discussão. “Sinal de que aprendi”, ela explica. Sempre que nos encontramos, ela tem muito a me ensinar. Deve ser porque está sempre aberta a aprender. Tem coisa mais honesta que ouvir alguém, no meio de um diálogo, confessando sua ignorância sobre um assunto? Será muito mais rico conversar quando o discurso deixar de ser instrumento de autoafirmação.
A verdade é que temos muitos canais para o diálogo e nenhuma conversa. Estamos todos tão ansiosos para falar que raramente nos abrimos para a troca. Entrar numa conversa de verdade é estar de peito aberto para sair diferente depois dela. Há uma bonita vulnerabilidade envolvida, uma disposição para se deixar lapidar pelo outro.
A conversa é um processo colaborativo, em que se revezam os interlocutores e os dois verbos ativos: escutar e dizer. Sabemos conjugar o segundo, mas esbarramos no primeiro. Temos tanto a dar numa escuta atenciosa, amorosa, empática. Enquanto resgato informações da minha memória, não deixo de estar atento ao momento presente. Acolho, deixo-me transformar pelo que escuto para, então, devolver o resultado da fala do outro em mim. Ou não – escutar e permanecer em silêncio pode ser uma forma elegante de sublinhar o que ouvimos e demonstrar que fez diferença.
Não falo de reuniões de negócios ou papos de elevador. Falo de um bom diálogo, alicerçado em sinceridade e transparência. Pode ser também com o motorista de táxi, o ascensorista, a manicure. Pode ser com o seu filho na ida para a escola. Pode ser até com o seu caderno de anotações – há quanto tempo você não conversa consigo mesmo? Para quem está aberto à vida, uma boa conversa pode ser um verdadeiro presente de Natal.
“Um calorão desses e você coberto de razão.” A frase nonsense do ator Michel Melamed me acertou como um soco no estômago. Estar coberto de razão é empolgante por, sei lá, menos de um minuto. Depois passa. Prefiro estar coberta de alegria, amor e humor. A vida é longa demais para ser levada tão a sério e misteriosa demais para que desvendá-la seja uma questão de sobrevivência. Nada supera o momento transformador em que você afrouxa a gravata, deixa a razão de lado e se dá a chance de mudar de opinião, de vida, de direção. Ter razão não tem a menor importância.
Assinale a alternativa em que a substituição da palavra sublinhada pelo termo destacado em seguida altera o sentido do enunciado: