///
Representação como realidade
É necessário, também, falsificar completamente a história. Essa é outra maneira de superar as tais restrições doentias: passar a impressão de que quando atacamos e destruímos alguém, na verdade estamos nos protegendo e nos defendendo de agressores e monstros perigosos, e assim por diante. Desde o final da Guerra do Vietnã, houve um esforço imenso para reconstruir a história do conflito. Muita gente começou a entender o que de fato estava acontecendo. Incluindo, entre outros, uma grande quantidade de soldados e jovens que participaram do movimento pela paz. Isso era perigoso. Era necessário reajustar essas ideias nocivas e restaurar alguma forma de racionalidade, a saber, reconhecer que qualquer coisa que façamos é nobre e correta. Se bombardeamos o Vietnã do Sul é porque estamos defendendo o país contra alguém, isto é, os sul-vietnamitas, uma vez que não havia ninguém mais lá além deles. Foi esse termo que Adlai Stevenson e outros utilizaram. Era preciso torná-la a versão oficial e fazer que ela fosse compreendida por todos. Funcionou muito bem. Quando se tem a mídia e o sistema educacional sob controle absoluto e a universidade assume uma postura conformista, é possível vender essa versão. Um sinal disso ficou evidente numa pesquisa feita na Universidade de Massachusetts a respeito das atitudes com relação à atual crise do Golfo – uma pesquisa sobre crenças e atitudes baseadas no que a televisão transmite.
Uma das perguntas da pesquisa era: “Entre mortos e feridos, quantas vítimas você calcula que a guerra do Vietnã causou?” A resposta média dada pelos americanos hoje é que foram cerca de 100 mil. Dados oficiais apontam que foram cerca de 2 milhões. O número real provavelmente está entre 3 e 4 milhões.
(CHOMSKY, N. Mídia: propaganda política e manipulação. São Paulo: Martins Fontes, 2013, p. 36-37)
As palavras falsificar e reconstruir podem ser consideradas, na lógica do texto: