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Antes mesmo de vir à Terra, cada criança já está envolta em palavras “com cheiro de antigo” que estão ali antes dela, todas as que nomeiam o mundo, que dizem ou ocultam o destino das gerações que a precederam, bem como os desejos que a fizeram nascer e que decidem boa parte de seu destino. Nessa linguagem, cabe a ela encontrar seu lugar, situar-se, tornar-se súdito dela. Compor um ninho, uma toca para viver suas próprias aventuras e suas próprias tragédias. Um imenso trabalho psíquico, bem além do aprendizado das sílabas e das letras.
É impossível reencontrar a sensação que deve ter suscitado em nós, quando éramos crianças, o mistério das palavras ouvidas e ainda incompreensíveis, ou o das letras grandonas nas ruas, quando nos levavam para passear, ou as de formato bem mais miúdo, nos jornais ou livros, se a casa em que crescemos os abrigava. Talvez nos aproximemos dessa sensação quando visitamos cidades estrangeiras cuja língua nos é completamente desconhecida. Algumas vezes, tive essa sensação na Ásia. Na Grécia também, quando comecei a viajar para lá. O enigma e o encanto eram tais que me apressei em aprender o grego moderno. E lembro-me do júbilo de quando comecei a decifrar as placas na rua, mas também da leve decepção quando pude distinguir, no canto melodioso das sílabas, termos que nomeavam realidades triviais — dinheiro, mercado, briguinhas de escritório ou de família.
Um de meus melhores amigos apaixonou-se profundamente por uma mulher sem sequer tê-la visto, só porque a ouviu, atrás dele, falar em uma língua que ele desconhecia totalmente. “Mas o que é isso?”, pensou ele antes de se virar, extasiado. Provavelmente havia ali uma ligação com a fascinação que sentimos, na infância, pelas sílabas ininteligíveis que nossa mãe e nossos parentes pronunciavam diante de nós.
Tudo isso para dizer que no princípio não era o verbo, e sim a voz. E o espanto, a intriga. Existem pessoas que se tornaram escritores precisamente porque não compreendiam certas palavras das histórias que lhes eram lidas ou contadas. Por isso, sempre é bom que algumas palavras escapem às crianças nas narrativas que lhes fazemos.
O vocábulo destacado apresenta sentido figurado em: