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Quem tem ouvidos, ouça. Nove, dez, onze horas, meia-noite, pouco importa. É a hora em que os brasileiros vão dormir. Escuta o formidável silêncio, entrelaçado de casa a casa, de rosto a rosto. Preste mais atenção: é a hora em que os brasileiros dormem. Mas os brasileiros não estão dormindo. Estão insones e secos, estirados em catres e redes, camas de ferro, leitos de madeira e aço, colchões de espuma de borracha. Não ressonam, estão de olhos abertos, como bichos no escuro do mato. Não dormem, pensam. Pensando na morte? Há muito que os brasileiros não pensam mais na morte. Lembrando tempos passados? O passado deixou de existir.
A fumaça de cigarros e cachimbos abafa os quartos, onde os brasileiros pensam, de olhos vermelhos, músculos doídos, olhos acesos. Na Amazônia, no Nordeste, nos descampados do Oeste, na região Centro-Sul de nosso dissipado orgulho industrial, os brasileiros estão insones e pensam com uma fatalidade triste e estúpida. Há muito que se esqueceram do tricampeonato que não veio. Há muito que não esperam qualquer vitória particular ou coletiva. Pensam, mas nem chegam a buscar uma solução do pensamento. É um pensamento espesso e pesado como uma pedra; e significa humilhadamente isto: onde vou arranjar o dinheiro?
Hoje, quem não pensa isso, insone e duro, está naturalmente desligado da difusa comunidade brasileira. Não tem nada com o imenso resto da realidade coletiva.
Ricos, remediados e pobres pensam todas as noites, olhos acesos, quarto esfumaçado: onde vou arranjar o dinheiro? Industriais, industriários, comerciantes, comerciários, fazendeiros, funcionários civis e militares, lavradores, homens do campo, o pensamento insone do Brasil é este: onde vou arranjar o dinheiro?
Falta sempre dinheiro. Falta dinheiro para pagar a comida, o remédio, os empregados, o colégio, o enterro, o banco, a prestação — e ninguém dorme. Repare na expressão dos brasileiros, quando caminham sozinhos na cidade e no campo: duros, chateados, alastrados desse intolerável eczema que é a falta de dinheiro. Mas de boca fechada — olhem bem —, eles estão todos de bico aberto. Como galinhas perseguidas por um menino que se diverte com um porrete em um dia de calor.
Paulo Mendes Campos. De bico aberto. In: O mais estranho dos países: crônicas e perfis. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 178 (com adaptações).
Na oração “onde vou arranjar o dinheiro?”, repetida ao longo do texto, considera-se gramaticalmente incorreto o emprego de “onde”, pois o verbo ir rege complemento introduzido pela preposição a, logo a forma pronominal correta seria aonde.