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Nossa existência é mesmo um mistério! Podemos olhar para ela em diversos planos e profundidades e sempre fica uma sensação de estranheza, de dúvida, de incompreensão. Há algo de profundamente paradoxal em sermos humanos.
Para começar, uma lição da aula de biologia: somos o resultado do encontro de um espermatozoide com um óvulo. Vinte e três cromossomos de cada lado se unem e nos conferem a totalidade de quarenta e seis generosas porções de material genético que nos fazem ser quem somos. Simples, não?
Longe disso. Não há nenhuma simplicidade nessa união fortuita. Por que aquele determinado espermatozoide vence uma corrida que envolve bilhões de concorrentes? Se, por um milésimo de segundo, outro tivesse vencido, poderíamos ser totalmente diferentes do que somos. Muito estranho pensar que fomos definidos, pelo menos em parte, por um simples acaso.
Talvez seja o mesmo acaso que reuniu elementos químicos e físicos em nosso planeta em condições tais que possibilitaram a formação de um primeiro ser vivo capaz de dividir-se indefinidamente. A própria história da evolução, desde esse primeiro ser unicelular até organismos cada vez mais complexos, mais especializados, únicos e singulares, é outro paradoxo. Como essa transformação vai ocorrendo de forma às vezes abrupta, às vezes gradual? Como mutações aleatórias em padrões genéticos prévios se combinam a ponto de gerar uma diversidade de possibilidades? E, finalmente, como algumas delas se saem melhor do que outras, diante de um ambiente externo em constante mudança, e garantem a sua perpetuação?
Para chegar ao ápice desse estranhamento evolutivo, em algum momento, um de nossos antepassados começou a adquirir habilidades cognitivas inéditas que o fizeram ser capaz de controlar parte das variáveis do mundo que o cercava. Ferramentas, fogo, cozimento de alimentos, agricultura e grupos sociais cada vez maiores e mais dinâmicos foram aproximando esse primata de quem somos hoje.
Paradoxo dos paradoxos, esse ser, capaz de entender cada vez melhor o que se passa à sua volta e de tomar decisões que podem impactar o mundo de maneira única, é o mesmo que continua a fazer guerras, a aniquilar outros humanos, a destruir o ambiente em que vive, a dizimar incontáveis espécies que são tão herdeiras da Terra quanto ele...
O mesmo sentimento que justifica nossa humanidade pode aprisionar, limitar e impedir. Tantos paradoxos, apesar de angustiantes, podem ser, no fundo, um grande estímulo para que sigamos tentando mudar.
A substituição de “Por que” (linha 12) por Por quê manteria a correção gramatical do texto, pois ambas as formas são corretas para se introduzir uma pergunta.