///
Seduzidos pelo charme transitório da juventude, muitos adultos rejeitam o envelhecimento natural e querem permanecer jovens a todo custo. E haja cirurgia plástica, implantes capilares, ginásticas, vitaminas especiais, hormônios, massagens e exercícios, em uma parafernália infernal em busca da fonte artificial da juventude. Como se envelhecer fosse uma vergonha da qual é preciso, em desespero, fugir.
Quem paga a conta desse equívoco, infelizmente, são os próprios jovens. O mundo e a vida não respeitam privilégios desse tipo, com base em premissas e convicções falsas, e os resultados já estão aí: basta observar o clima geral de apático desinteresse por tudo e por todos que se manifesta em boa parte dos nossos jovens. O excessivo endeusamento à juventude roubou deles sua maior riqueza: a vontade de virar gente grande.
Essa patológica inversão de valores dá origem a um fenômeno muito curioso, cada vez mais observado, principalmente, nos países desenvolvidos. Na Europa rica, surge uma raça hodierna de jovens apáticos que entristecem e envelhecem nas casas dos genitores. E há uma raça antiga de jovens de espírito, embora velha de anos, que vai dançar, pratica esportes, viaja, estuda, lê, navega em redes virtuais. Os primeiros tiveram tudo e não aprenderam a desejar; os segundos – nascidos nas décadas que sucederam a Segunda Grande Guerra e suas consequências – tiveram muito pouco e sabem o que querem: uma existência intensa e alegre, mas, ao mesmo tempo, leve e serena. Uma existência saudável, feliz e divertida, dentro de parâmetros naturais totalmente possíveis ao ser idoso.
“Esta é a primeira geração dos novos-velhos”, comenta Arrigo Levi, um dos mais importantes jornalistas italianos, ele mesmo um novo-velho de 92 anos de idade. Levi publicou, em seu país, um divertido guia para a terceira e a quarta idades, intitulado A velhice pode esperar – ou seja, a arte de permanecer jovem, no qual escreve: “É como o salto no vazio do adolescente que vai ao encontro da juventude. A gente amadurece, a um certo ponto alça voo em direção à velhice e, diante de si, encontra um mar infinito que se chama liberdade”.
Luís Pellegrini. Os novos velhos. O despertar da quarta idade. Internet: <https://portalplena.com> (com adaptações).
Os sinais de dois-pontos empregados logo após “estão aí” (linha 12) e “querem” (linha 27) introduzem termos de natureza explicativa, cujo sentido, em ambos os casos, poderia ser explicitado pela substituição dos dois-pontos pelo conectivo pois.