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Pombinha, impressionada pela transformação da voz
dele, levantou o rosto e viu que as lágrimas lhe desfilavam
duas a duas, três a três, pela cara, indo afogar-se-lhe na moita
cerdosa das barbas. E, coisa estranha, ela, que escrevera
tantas cartas nas mesmas condições, que tantas vezes
presenciara o choro rude de outros muitos trabalhadores do
cortiço, sobressaltava-se agora com os desalentados soluços
do ferreiro.
Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre;
depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de
sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias
dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A
sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara
inesperadamente, atingindo de súbito, em pleno
desenvolvimento, uma lucidez que a deliciava e surpreendia.
Não a comovera tanto a revolução física. Como que naquele
instante o mundo inteiro se despia à sua vista, de improviso
esclarecida, patenteando-lhe todos os segredos das suas
paixões. Agora, encarando as lágrimas do Bruno, ela
compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade
desses animais fortes, de músculos valentes, de patas
esmagadoras, mas que se deixam encabrestar e conduzir
humildes pela soberana e delicada mão da fêmea.
Aquela pobre flor de cortiço, escapando à estupidez
do meio em que desabotoou, tinha de ser fatalmente vítima
da própria inteligência. À míngua de educação, seu espírito
trabalhou à revelia, e atraiçoou-a, obrigando-a a tirar da
substância caprichosa da sua fantasia de moça ignorante e
viva a explicação de tudo que lhe não ensinaram a ver e
sentir.
Aluísio Azevedo. O cortiço. São Paulo: Objetivo, CERED, 1995.
No que se refere aos aspectos linguísticos do texto acima e à literatura brasileira, julgue os itens a seguir.
O verbo “encabrestar” (linha 22) foi empregado no texto em sentido figurado.