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Os óculos mágicos (Moacyr Scliar)
Quando eu era criança, tive um problema. Melhor dizendo, tive vários problemas, mas havia um que era bem chato. Eu precisava usar óculos. Meus pais tinham me levado a um médico especialista em olhos, e ele, depois de me examinar, fez o anúncio em tom solene: “Você tem de usar óculos”, disse, e entregou a receita ao meu pai.
Bem, que eu precisava usar óculos, isso eu já sabia. Porque a verdade é que eu não enxergava bem. Na aula, tinha de sentar na primeira fila e mesmo assim, às vezes, não conseguia ler o que a professora escrevia no quadro. Mais: vivia dando topadas por toda parte, tanto que minhas pernas estavam todas esfoladas. É claro que eu precisava de óculos. Só que eu não queria usar óculos. Achava que todo mundo iria debochar de mim, que me dariam apelidos tipo quatro olhos. Meu pai, minha mãe e minha irmã mais velha, a Teresa, insistiam, lembravam o que o médico tinha falado. Inútil.
“Não uso óculos e está acabado!”, eu dizia.
Bom, hoje uso óculos. Perguntarão: mas então você mudou?
Mudei. E mudei graças à vó Cornélia.
Vó Cornélia era a mãe de meu pai. Eu não a via muito seguido; ela morava no interior e só de vez em quando aparecia para nos visitar. Mas, quando vinha, era um acontecimento, principalmente, para mim. Porque a vó Cornélia, uma velhinha miúda, magrinha, tinha fama de feiticeira. Todo o mundo dizia que ela podia fazer mágicas incríveis. O meu sonho era ver alguma mágica da vó Cornélia.
Logo depois da visita do médico, ela veio nos visitar. Nos primeiros dias, correu tudo normal, como se ela fosse uma avó igual às outras. Mas uma noite me chamou. Disse que tinha um presente especial para mim e me deu uma caixa plástica. E o que tinha lá dentro? Óculos.
“Esses óculos são mágicos”, ela disse. “Se você usá-los sempre, de repente vai ver as coisas maravilhosas, coisas que você nunca viu antes.”
Foi assim que comecei a usar óculos. E nunca mais parei. A vó Cornélia morreu há muito tempo. E vocês perguntarão: e aquela história da mágica era mentira dela?
Não, não era mentira. Ou pelo menos não era totalmente mentira. Porque os óculos foram mágicos para mim. Agora eu podia ler, podia enxergar direito e podia ver coisas que nunca tinha visto antes. Com os óculos eu tinha descoberto a magia da vida.
Em “É claro que eu precisava de óculos. Só que eu não queria usar óculos. (2º§), ocorre a repetição de um mesmo nome. Isso poderia ter sido evitado, com correção, se fosse feita a seguinte substituição: