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O caçador de palavras
[...] Foi quando vi, no canto do balcão, ajudando a apoiar uma lata, um livro grosso. Fui até ele. Peguei. Era bem pesado. Saí do saguão, onde só entrava a luz do luar, e fui ao banheiro. Acendi a luz. No hall de entrada que levava aos dois toaletes, havia um sofazinho velho. Sentei, e abri o livro. Era um dicionário com a origem e os significados das palavras. No primeiro instante, pensei: - Bem que eu preferia um livro policial. Puro engano. Só para me distrair, comecei a folheá-lo. Pouco a pouco, fui sendo envolvido pelo universo fascinante das palavras. Elas começaram a brilhar para mim como estrelas no céu. Da mesma forma que todas as pessoas, sempre vivi cercado por verbos, substantivos, adjetivos. Com eles, dei forma a sentimentos, expressei vontades, descobri risos, comuniquei emoções. Mas, assim como não se pensa conscientemente nos dedos cada vez que se pega um garfo, também não me detinha nas palavras. Elas faziam parte de mim como os olhos, os cabelos e as unhas. Estão enredadas no cotidiano como o elevador do prédio, o ônibus, o cartão de ponto. Apesar de fluírem através da vida com tanta facilidade quanto o ar que respirava, as palavras eram um instrumento que eu usava mecanicamente. De repente, tudo mudou. Naquela noite, descobri que as palavras guardam histórias. Percorrem os tempos, registrando emoções, atravessam vidas. Entendi, pela primeira vez, o fascínio dos poetas ao brincar com elas, criando versos e rimas que tecem os sons das marés, a cadência dos sentimentos, o colorido das primaveras. A paixão de quem faz letras de música, sonoras por si sós, onde as palavras remetem umas às outras, dançam entre si. Senti o encanto dos escritores que as usam para criar mundos e vidas, como se fossem bilhetes para viagens fulgurantes. E, então, eu também me apaixonei, porque descobri, mais do que tudo, o quanto as palavras são vivas. [...] Descobri que as palavras ganham e perdem significados, como se fossem pedaços de argila modeláveis com a história de cada povo. Alguém hoje fala em camisinha para dizer que a camisa está pequena? Mas isso é: outdoors, panfletos, livros falam abertamente na importância de preservativos. No entanto, houve época em que a simples menção da camisa de vênus - nome dado por nossos avós à camisinha - era motivo de escândalo, principalmente diante de uma dama. Quantos duelos terão sido travados por isso? Aquela noite mudou minha forma de ser. Passei horas lendo o dicionário, e quando amanheceu eu estava absolutamente encantado. Entrou um servente com um balde. Ele me olhou espantado: jamais esperaria encontrar alguém lendo de madrugada, na porta do banheiro, dentro do cinema. Aproveitei sua surpresa para me levantar e sair sem dar maiores explicações. Levei o dicionário comigo. Como um livro tão fascinante podia estar sendo usado como apoio para uma reles lata de biscoitos? [...] Finalmente, podia escrever nas páginas em branco da minha vida. Eu tinha me apaixonado pelas palavras. (CARRASCO, Walcyr. O caçador de palavras. São Paulo: Ática, 1993.)
As três últimas frases do primeiro parágrafo são curtas. Sobre elas, só NÃO é correto afirmar que: