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DIA DO PROFESSOR DE ANACOLUTOS Os cabelos brancos. O tronco curvado. Mas elegante. Baixinho elegante. O terno azul – perto, bem perto, é que se notava que o terno brilhava de tanto uso –, os sapatos engraxados, a gravata com o nó incerto, a camisa comum. Um homem sem grife. Tomando café no bar da Wenceslau Brás. Coloquei de leve minha mão em seu ombro: - Tudo bem, professor? Franziu a testa, apertou os olhos atrás das lentes dos óculos, tentou achar uma ficha no arquivo da memória. - Tudo bem, em termos –, ele falou. Não me reconheceu. Estava na cara que não me tinha reconhecido. Diabos, eu não fora tão mau aluno assim. Sentava na primeira fila, perto da janela. Uma vez, quando caiu o giz no chão, e ele se abaixou para apanhá-lo, eu não rira como alguns fizeram ao perceber que o bolso traseiro das calças estava descosturado. O bolso traseiro das calças do professor de português! Levantei-me, corri a pegar o giz, aqui está, professor. Ele me olhou agradecido, o rosto cansado. Já naquela época, o rosto cansado. Dava aulas em três escolas e ainda levava para casa uma maçaroca de provas para corrigir. O aluno preparava-se para sentar, ele, o olhar fino: – Aproveitando que o moço está de pé, me diga: sabe o que é um anacoluto? É o que dá a gente querer ser legal. Vai-se apanhar o giz do chão, e o professor vem e pergunta o que é anacoluto. Por que não pergunta àquela turma que ficou rindo do bolso traseiro rasgado das calças dele? – Anacoluto... Anacoluto é... Anacoluto. – Pode se sentar. Vou explicar o que é anacoluto. Muito obrigado por ter apanhado o giz do chão. Estou ficando enferrujado. Agora era ele, no bar, tomando café. – Lembra de mim, professor? Também estou de cabelos brancos. Menos que ele, claro. Com o indicador da mão esquerda acerta o gancho dos óculos no alto do nariz fino e cheio de pintas pretas e veiazinhas azuladas, me encara, deve estar folheando o livro de chamada, verificando um a um o rosto da cambada da segunda fila da classe. – Fui seu aluno, professor! – Estou sabendo, meu jovem. Mas não estou recordando agora qual era seu apelido na escola. Eu disse. Ele: – Ah, é mesmo! Minha memória não anda boa. Toma um cafezinho? Aceitei. E paguei os dois. É o mínimo que posso fazer ao meu antigo professor de anacolutos.
Assinale a alternativa em que a expressão transcrita, entre parênteses, funciona como interjeição no fragmento retirado do texto.