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DIFERENÇAS SIMPLIFICADAS
Por Sírio Possenti. Adaptado de: http://revistalingua.uol.com.br/textos/96/diferencas-simplificadas-298553-1.asp Acesso em 05 mar 2015.
Quando se fala das diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal, mencionam-se invariavelmente três: a) o léxico, em boa medida diferente, como era de se esperar; b) a diferença de colocação dos pronomes átonos: o Brasil é basicamente proclítico; c) onde usamos gerúndio, eles usam infinitivo.
Esta análise é uma simplificação bastante grosseira. Até por isso, é aceita. E também porque é boa para provas em que se esperam respostas categóricas.
Não é que não haja diferenças lexicais. Elas são mais do que evidentes.
Mas, embora as diferenças neste domínio sejam numericamente mais significativas, são a rigor do mesmo tipo das que existem entre nós, e distinguem dialetos do Norte e do Sul, a fala dos letrados da dos não letrados, etc. Os dicionários técnicos e de falares regionais, e mesmo a literatura, em boa medida, estão aí e não deixam ninguém mentir.
Mestre Mattoso, por exemplo, assinala que também alguns advérbios se colocam diferentemente. Assim, dizemos "não vou lá", enquanto eles dizem "lá não vou".
Mas há mais. Mesmo se ficarmos exclusivamente na questão da colocação dos pronomes, pode-se ver que não é tão simples. Há detalhes, como o de que no português do Brasil o pronome está sempre junto ao verbo principal, enquanto que no de Portugal esses elementos podem estar separados (compare "não tinha me lembrado" a "não me tinha lembrado").
Nossa frase não se organiza (ou não apenas) na construção sujeito-predicado, como a escola ensina e obriga a acreditar. Dizemos muito frequentemente - cada vez mais - frases como "A Maria, essa não quer nada com o serviço", e também frases como "Essa bolsa as coisas somem, aqui dentro".
O que lembra o chinês (e os preconceitos que isso implica em relação à clareza de pensamento), língua em que as estruturas sintáticas são do tipo "Aquele fogo feliz corpo de bombeiros veio rápido", o que pode ser traduzido, como o leitor já percebeu, por "Aquele fogo, os bombeiros felizmente vieram rápido" (em estrutura tópico-comentário), ou - para os conservadores - por "Felizmente, os bombeiros vieram rapidamente combater o fogo".
Essa é, segundo Charlotte (que apresenta outros argumentos, além do aqui mencionado), mais uma diferença entre o português do Brasil e o de Portugal. Eunice Pontes, no entanto, alega que mesmo em obras antigas encontra-se muito anacoluto no português de Portugal, que o reprime menos do que no Brasil.
Finalmente, o caso gerúndio x infinitivo. Este também é menos simples. A análise que se conhece e divulga desconsidera detalhes importantes.
No caso das reduzidas de gerúndio, essa equivalência não ocorre, porque em Portugal também se diz (os dados são de peças publicitárias): "Limpeza com suavidade do rabinho do bebê, eliminando eficazmente a sujidade" e "Seguindo o crescimento da criança, colocamos uma de nossas alcofas...". No português de Portugal, não se diria "a eliminar eficazmente..." nem "a seguir o crescimento...".
O mais interessante não é essa distribuição, que pareceria muito regular. O que chama atenção é um caso relacionado com estruturas que contêm predicados secundários. Uma frase como "Pedro trabalha cantando" é ambígua. Se significa que 'Pedro canta enquanto trabalha', eles dizem "Pedro trabalha a cantar". Mas, se significa que 'cantar é o trabalho de Pedro', eles dirão preferencialmente "O trabalho de Pedro é cantar". Nesse caso, não empregam nem gerúndio nem infinitivo.
Crianças brasileiras e portuguesas conhecem essas regras sem estudá-las na escola. E a escola, quando as estuda, produz simplificações grosseiras (na verdade, a escola simplifica tudo em demasia). Talvez seja melhor deixar o domínio dessas sutilezas para a intuição dos falantes e seu estudo cuidadoso para os cursos de Letras.
Assinale a correta. Ao referir-se ao léxico, o autor faz menção à/ao: