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Judeus, solitários & fantasmas
Será que o anti-semitismo ainda surpreende alguém?
Eu julgava que não. Lembrando as célebres palavras do satirista Karl Kraus (1874-1936) sobre a Viena do seu tempo ("O anti-semitismo é tão comum que até os judeus o praticam"), deixei de prestar atenção aos delírios anti-semitas que se produzem todos os dias. Caso contrário, seria impossível ler jornais ou assistir a programas de TV. O anti-semitismo é tão comum que toda gente o pratica.
Errei. Parcialmente, mas errei. Afinal, ainda há surpresas. O Reino Unido está em chamas com os escândalos das sucessivas afirmações anti-semitas no Partido Trabalhista.
Tempos atrás, uma deputada afirmou que Israel deveria ser "recolocado" nos Estados Unidos – uma forma simpática de apagar Israel do mapa do Oriente Médio, exatamente como o Irã e seus satélites (o Hamas, o Hizbullah) pretendem fazer pela força das armas. Foi um mini-escândalo.
Agora, veio o escândalo maior: o ex-mayor de Londres, Ken Livingstone, defendeu a camarada e acrescentou alguns "pensamentos" sobre a matéria. Hitler, disse ele, foi um grande apoiante do projeto sionista.
Não vale a pena perder tempo com a sabedoria de Livingstone: no "The Daily Telegraph", o colunista Charles Moore lembrou que essa fantasia nem sequer é original. Ela foi produzida por Lenni Brennan no livro "Zionism in the Age of Dictators", um livro que nenhum historiador sério leva a sério.
O que interessa no escândalo em curso é que ele permite ressuscitar todo o histórico anti-semita de uma parte da esquerda britânica – e, já agora, da esquerda europeia.
Sobre o anti-semitismo da direita, há poucas dúvidas e poucas surpresas: o ódio aos judeus sempre fez parte da cartilha mais radical. Mas na história desta vergonha, o mundo esquece por vezes como o anti-semitismo também marchou com a esquerda.
Karl Marx, nas suas tiradas anti-capitalistas, nunca poupou o seu próprio povo – um povo de trambicagens que alimentavam a máquina capitalista e retardavam a revolução.
Stalin, apesar da retórica anti-fascista, também contribuiu com deportações e execuções para dizimar a espécie dentro e fora da União Soviética.
E, no contexto da Guerra Fria, a dicotomia "exploradores" e "explorados" – ou, como Charles Moore prefere, entre "colonialistas" e "colonizados" – assentou como uma luva nas interpretações simplórias sobre o conflito israelo-palestino.
Você pode não saber nada sobre o conflito – origens, guerras, "acordos de paz" etc. Mas uma coisa você sabe: Israel "explora"; os "palestinos" são "explorados". Fim de discussão.
Foi assim que se chegou ao irracionalismo de hoje: com o álibi de "Israel", o mais antigo ódio do mundo pode ser exercido de consciência limpa. Até porque "anti-sionismo" é diferente de "anti-semitismo", certo?
Em teoria, com certeza. Mas, na prática, muitos dos "anti-sionistas" não discutem racionalmente o conflito entre Israel e os palestinos com o mesmo tom com que dissertam sobre conflitos territoriais entre a Índia e o Paquistão; entre a Rússia e os chechenos; entre a China e o Tibete; e etc. etc.
No meio de dezenas de conflitos territoriais, Israel apaixona as plateias porque Israel, bem vistas as coisas, tem judeus lá dentro.
Com relação ao valor semântico das palavras e expressões empregadas no texto, assinale a opção incorreta.