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Não podemos negar que há homens que, embora não cometam nenhuma injustiça, prefeririam ter o poder de fazê-lo impunemente, caso quisessem. Tomemos como exemplo o pastor Giges. Este, segundo a história, era um simples pastor a serviço do rei da Lídia. Um dia, aconteceu que a terra tremeu, e abriu-se um sulco no solo, no lugar onde ele se encontrava pastoreando. Admirado, desceu ao fundo da abertura e encontrou um cavalo de bronze, maior que um cavalo natural, e umas portas. Tendo aberto as portas, encontrou um corpo morto, maior que o corpo de um homem natural, e junto a ele um anel. Depois de ter retirado o anel do dedo do morto, saiu da abertura. Com esse anel no dedo, foi assistir à assembleia habitual dos pastores, que se realizava todos os meses, para informar ao rei o estado dos seus rebanhos. Tendo ocupado o seu lugar no meio dos outros, virou, sem querer, a pedra do anel para o interior da mão; imediatamente se tornou invisível aos seus vizinhos, que falaram dele como se não se encontrasse ali. Assustado, apalpou novamente o anel [...]. Assim que teve certeza, conseguiu juntar-se aos mensageiros que iriam conversar com o rei. Chegando ao palácio, ele seduziu a rainha, conspirou com ela a morte do rei, matou-o e obteve, assim, o poder. Agora suponha que existam dois anéis dessa natureza, e o justo recebesse um, e o injusto, outro. É provável que nenhum fosse de caráter tão firme para perseverar na justiça e para ter a coragem de não se apoderar dos bens de outra pessoa. Afinal, ele poderia tirar sem receio o que quisesse dos mercados e lojas, introduzir-se nas casas para se unir a quem lhe agradasse, matar uns, libertar outros da prisão e fazer o que quisesse, tornando-se igual a um deus entre os homens. Agindo assim, nada o diferenciaria do mau: ambos tenderiam para o mesmo fim. Isso é uma grande prova de que ninguém é justo por vontade própria, mas por obrigação, não sendo a justiça um bem individual, visto que aquele que se julga capaz de cometer a injustiça comete-a.
Quanto à regência dos verbos constantes do primeiro parágrafo, com base unicamente nesse contexto, é CORRETO afirmar que: