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ADERÊNCIA AO TRATAMENTO
por Drauzio Varella
1 Damos o nome de “aderência” à assiduidade com a qual seguimos as recomendações médicas. Ela é mais alta nas doenças agudas, sintomáticas. Um doente com pneumonia e falta de ar faz repouso e toma sete dias de antibiótico, nos horários recomendados.
2 Difícil é manter os esquemas contra a tuberculose que duram seis meses ou contra Aids, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, que devem continuar pela vida inteira.
3 Nas enfermidades crônicas, mesmo em ensaios clínicos internacionais que incluem participantes selecionados e acompanhados de perto, as meta-análises demonstram que a aderência varia entre 43% e 78%.
4 No Brasil, ocorrem cerca de 300 mil mortes anuais por doença cardiovascular, o equivalente a um óbito a cada dois minutos. Nas últimas décadas surgiram betabloqueadores, antiagregantes plaquetários, estatinas e outros medicamentos capazes de reduzir o risco de ataques cardíacos, derrames cerebrais e óbitos, tanto em pessoas com risco elevado de apresentar tais complicações (prevenção primária) quanto naqueles que já as enfrentaram (prevenção secundária).
5 Um estudo sobre prevenção secundária conduzido com 4.761 pacientes que receberam prescrição de uma dessas drogas mostrou que, depois de um ano, apenas 809 (17%) permaneciam em tratamento. Em outro estudo semelhante, o seguimento de 8.864 pacientes durante um ano revelou que 88% abandonaram a medicação.
6 As causas para a interrupção são multifatoriais: custo, efeitos indesejáveis, dificuldade para marcar consultas, falta de informações sobre a finalidade da medicação e os riscos de interrompê-la, indisciplina, baixa escolaridade, negação e dificuldades no relacionamento médico-paciente.
7 Nós, médicos, contribuímos involuntariamente para esses índices de aderência: entregamos as receitas nas mãos de nossos doentes e imaginamos que eles as seguirão religiosamente, sem levarmos em conta as suas idiossincrasias.
8 Um hipertenso mal informado dos riscos de viver com pressão alta e da necessidade de medi-la e controlá-la, dificilmente tomará com regularidade as drogas prescritas. O sobrevivente de um ataque cardíaco precisa ser convencido de que ao lado da atividade física e da dieta equilibrada, a medicação pode evitar que aconteça outro.
9 Se nas condições de trabalho que o sistema público e os planos de saúde impõem à prática de hoje, o tempo de cada consulta é insuficiente para explicações mais detalhadas, precisamos de pessoas que nos ajudem. Quem são elas? Os familiares do doente e as enfermeiras, profissionais subutilizadas no Brasil.
10 A experiência mostra que contatos periódicos por telefone, SMS, e-mail ou WhatsApp aumentam significativamente a aderência. Equipes de enfermagem podem realizar esse trabalho com muito mais eficiência do que nós.
11 De que adianta basearmos nossa prática nas melhores evidências científicas se nossos pacientes não levarem a sério as mudanças de estilo de vida que lhes recomendamos ou não tomarem os remédios receitados?
Na passagem “Nós, médicos, contribuímos involuntariamente para esses índices de aderência: entregamos as receitas nas mãos de nossos doentes e imaginamos que eles as seguirão religiosamente, sem levarmos em conta as suas idiossincrasias”, o termo em destaque significa, nesse contexto: