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Uma Nova maneira de encarar o amor
De repente, me percebo refletindo de uma forma nova. Compreendo o homem como um ser completo, no qual não falta parte alguma. Deixo de vê-lo como a "metade" de uma laranja buscando reencontrar a outra "metade", ideia que nos persegue há 25 séculos, desde o mito do Androgino descrito em O Banquete, de Platão. Deixo de pensar no ser humano como uma "panela" que terá que encontrar sua "tampa", caso contrário a infelicidade baterá a porta. Vejo o homem inteiro, sem o "buraco" – esta cicatriz psíquica derivada do trauma do nascimento.
Os desdobramentos dessa linha de raciocínio são ricos e interessantes, para minha vida, quem sabe podem ser para mais alguém. Primeiro, podemos combater nossos sentimentos de inferioridade, pois eles derivam de uma sensação e não de um fato real. Depois, seremos capazes de preencher o tal "buraco" por nossos próprios meios, sem depender demais de outras pessoas ou de uma relação afetiva em particular. Desaparece a noção de individualismo como algo nocivo; é direito da pessoa buscar sua autossuficiência. Desaparece a noção de solidão como coisa triste e vergonhosa. Ao contrário, é sinal de amadurecimento pessoal ser capaz de ficar consigo mesmo.
O esforço principal do individuo muda de direção. Em vez de buscar o parceiro ideal, com o qual poderia se sentir completo, ele passa a querer se aprimorar para poder atenuar (ou fazer desaparecer) a sensação de incompletude. Afinal, se o "buraco" é sensação e não um fato, nada mais razoável do que tentar se livrar da sensação, em vez de buscar preencher uma falta que só existe na aparência.
E amor como fica? desaparece? Não creio. Pode ser que, daqui a alguns séculos, quando as crianças forem geradas em incubadeiras, as coisas se modifiquem de forma imprevisível. Por ora, acredito que as grandes mudanças vão ocorrer em outras direções. Uma delas é alteração do ideal romântico (judaico-cristão, bíblico) da fusão de duas pessoas em uma só. As ligações amorosas contemporâneas, próprias de quem sabe que terá que resolver sozinho suas inquietações íntimas, tenderão a respeitar mais a identidade e a individualidade dos parceiros. Aliás, a ideia de fusão, de total dependência e diluição de um no outro, sempre provocou o medo nas pessoas que vivem intensas paixões. Esse caminho, o de que "quanto mais junto, melhor" não combina com a constatação de que o amor não deverá ser o único remédio para o nosso "buraco".
A outra mudança deriva exatamente disso. O "buraco" antecede o amor e é o que nos leva a querer tanto uma aliança forte com o outro. Se pensarmos a partir desse enfoque, não teremos razão para sentir raiva do parceiro cada vez que ele não for capaz de o preencher completamente. Sim, pois o amor se torna extremamente exigente, autoritário e possessivo por conta desse objetivo de neutralizar o "Buraco" do outro. O amor não deverá mais ser visto como um remédio para a incompletude.
O amor como remédio para o "buraco" nos trouxe mais problemas que soluções. Quero meu parceiro sempre ao meu lado, do contrário me sinto incompleto. Sempre que ele não agir de acordo com minhas aspirações, sinto o "buraco" e o acuso de não estar sendo companheiro, senão eu não teria a desagradável sensação de incompletude. Para não me decepcionar, ele terá de agir de modo a não permitir essa sensação. Ou seja: terá que me obedecer!. E eu a ele! Isso se transforma numa luta de poder, sem ganhadores. Onde um vai, o outro tem que ir. Senão o "buraco" de ambos reaparece, com suas devidas acusações recíprocas.
Não é a toa que nossa vida amorosa tem sido tão mal sucedida. Que tal imaginarmos uma situação assim: cada um vai para seu lado, cuida do seu "buraco" e libera o parceiro da função de remédio? Ao se encontrarem não terão cobranças, nem ressentimentos. Poderão, finalmente, ser amigos, solidários, companheiros, amantes.... (Flávio Gikovate – revista Cláudia)
Androginia – segundo algumas religiões, é um estado inicial do ser humano que deve ser reconquistado. De acordo com essas crenças, o homem e a mulher possuíam um corpo provido de dois rostos. Deus separou-os, dando a cada um deles um dorso. É a partir desse momento que eles começam a ter existência diferenciada.
Orientação sexual
O último e não menos importante aspecto da sexualidade diz respeito ao desejo erótico. A nosso ver, a orientação sexual é o sentimento de atração que temos por uma ou várias pessoas tanto no âmbito afetivo como no sexual. É como um turbilhão que envolve fantasias e paixões, indicando o tipo de pessoa que nos atrai. Os seres humanos podem legitimamente se interessar sexualmente pelo sexo oposto, pelo mesmo sexo ou ainda por ambos os sexos. Serão, respectivamente, heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. Esse interesse pelo/a outro/a pode desencadear afetos (amor, amizade, carinho), mas pode limitar-se ao contato corporal. Como, no entanto, nos é ensinado em nossa cultura, sobretudo pelas religiões, que o desejo sexual não deve existir desvinculado de algo “maior”, reprimimos aqueles sentimentos que julgamos não estarem de acordo com esse destino elevado (apaixonar-se, casar-se, ter filhos). Com isso, ao longo de nossas vidas aprendemos que as relações afetivas e sexuais são “normais” se ocorrerem entre pessoas de sexos opostos. E um verdadeiro arsenal de coerções de todos os tipos – culturais, sociais, físicas, históricas, financeiras – nos levam a “controlar” nossos desejos. Em muitas situações, a preferência sexual poderá ser ocultada ou camuflada, devido à força das convenções sociais e da consequente repressão que engendram quando alguém ousa descumpri-las.
Dado que a heterossexualidade foi erigida como o padrão, isto é, como a “única forma correta de vivenciar a sexualidade, socialmente aceita e inquestionável”, não é nada fácil para alguém admitir que é homossexual.
Quem sente um forte desejo por alguém do mesmo sexo se vê acuado pelo clima adverso que o/a condena como imoral, pecador/a ou até doente mental. Sozinho/a e sem ter com quem conversar, a pessoa pode condenar em si mesmo/a, com maior rigor e culpa, o que os outros dizem ser condenável, pois a maneira como se vê fica totalmente impregnada pelo preconceito. Por isso, desvaloriza-se, foge de si e de seus sentimentos e chega até a negar-se como pessoa, muitas vezes autoflagelando-se psíquica ou fisicamente.
Das três orientações sexuais possíveis – a hetero, a homo e a bissexual, possivelmente a última é a mais incompreendida. Novamente nos vemos às voltas com o raciocínio binário que, dessa vez, num outro patamar, nos impõe uma escolha mutuamente exclusiva entre homo e heterossexualidade. O próprio Freud chamava a atenção para o fato de que os seres humanos nascem abertos para se interessarem por ambos os sexos. Potencialmente, somos todos e todas bissexuais, pois carregamos a possibilidade de nos sentirmos atraídos/as pelos dois sexos. A sociedade, contudo, tem dificuldade em lidar com essa complexidade e empurra os indivíduos para “caixinhas fechadas”.
Durante a adolescência, é comum que jovens tenham experiências com colegas do mesmo sexo. De forma alguma isso é uma prova definitiva da orientação sexual. Pode indicar simplesmente um meio de buscar conhecer certas formas de satisfação e de tatear o universo do desejo erótico. Pode também ser o momento de uma descoberta, caso o/a jovem se sinta realizado/a e confortável com aquela experiência. Seja como for, uma coisa é certa: apenas quem vivencia o desejo é que pode afirmar, com certeza e tranquilidade, a sua orientação sexual.
Para concluir, enfatizamos que a identidade de gênero é sentir-se homem ou mulher, e o modo de expressá-la socialmente não se confunde com a orientação sexual (a atração afetiva e erótica pelo outro sexo, pelo mesmo sexo ou por ambos). Vale dizer que não se pode “deduzir” a orientação do desejo de alguém em função de traços de seu jeito de ser. Um homem cuja profissão o faz lidar com o público pode ser gentil e isso nada tem a ver com o fato de ser bi, homo ou heterossexual. Uma mulher pode ter preferências por outras sem ostentar uma postura agressiva, isto é, sem vivenciar o estereótipo da “caminhoneira”. (Beto de Jesus, Lula Ramires, Sylvia Cavasin e Sandra Unbehaum em Diversidade sexual na escola)
“Uma mulher pode ter preferências por outras sem ostentar uma postura agressiva, isto é, sem vivenciar o estereótipo da caminhoneira”. A palavra destacada relaciona-se a uma questão: