Eu sei, muito pouca gente lê nos dias de hoje. Eu sei; dentro dos poucos que
leem, pouquíssimos dão valor a textos de humor. Sim, eu sei, o autor sofrer de
incontinência verbal e ficar lançando livros como quem cospe sementes de melancia
na terra não é nada positivo para sua carreira.
Eu sei disso tudo e mais: sou um sujeito que produz material “perigoso”. Ou
seja, não concorro a prêmios, não sou congregado de nenhuma academia ou
igrejinha, e tenho uma enorme preguiça de dar entrevistas. Pior: não tenho TikTok e
nem faço ideia de como usar o celular para gravar vídeos promocionais.
Em outras palavras, eu sei que meu 78º livro, se vender alguma coisa, não vai
dar para pagar nem o revisor, quanto mais meu aluguel. Então, por que ficar
insistindo no erro desde 1996, quando estreei no mundão das letras com “Aqui jaz —
o livro dos epitáfios"? Masoquismo é a primeira palavra que vem à cabeça. Obsessão
é a segunda. Vaidade, a terceira. Não creio, entretanto, que elas expliquem
claramente o que acontece comigo — o buraco na camada de teimosia é mais
embaixo.
(Adaptado de: CASTELO, Carlos. Disponível em: In: https:/www
estadao.com.br)