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Texto 10A3AAA
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete horas de chumbo.
[…]
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.
Aluísio Azevedo. O cortiço. 15.ª ed. São Paulo: Ática, 1984. p. 28-9.
Leia, a seguir, o trecho da obra Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
“O que mais a impressionou no passeio foi a
miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das
casas, o ar triste, abatido da gente pobre.
Educada na cidade, ela tinha dos roceiros ideia
de que eram felizes, saudáveis e alegres.
Havendo tanto barro, tanta água, por que as
casas não eram de tijolos e não tinham telhas?
Era sempre aquele sapê sinistro e aquele
"sopapo" que deixava ver a trama de varas,
como o esqueleto de um doente. Por que, ao
redor dessas casas, não havia culturas, uma
horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de
horas? E não havia gado, nem grande nem
pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por
quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era
mais animador. Todas soturnas, baixas, quase
sem o pomar olente e a horta suculenta. A não
ser o café e um milharal, aqui e ali, ela não pôde
ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não
podia ser preguiça só ou indolência. Para o seu
gasto, para uso próprio, o homem tem sempre
energia para trabalhar. As populações mais
acusadas de preguiça, trabalham relativamente.
Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda parte, os casais, as famílias, as tribos, plantam
um pouco, algumas coisas para eles. Seria a
terra? Que seria? E todas essas questões
desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de
saber, e também a sua piedade e simpatia por
aqueles párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez
com fome, sorumbáticos!…” (BARRETO, Lima, 1983
[1915], p. 61 e 62).
A partir da leitura dos trechos dos romances de Machado de Assis e Aluísio Azevedo, julgue o item a seguir.
No introito à narrativa de sua própria morte, Brás Cubas deixa evidentes traços marcantes de sua composição como narrador-personagem: suas contradições recorrentes, seu amor pelas aparências e sua megalomania.
Considerando o desenvolvimento da literatura no Brasil, bem como os fundamentos de teoria literária, julgue o item.
Em O cortiço, afastado da visão naturalista que regia
seus romances anteriores, Aluísio Azevedo compôs um
retrato fiel da sociedade brasileira, ao descrever os
habitantes do cortiço para além da perspectiva
determinista que submetia os destinos humanos às
determinações da raça e do meio.