Alguns autores consagrados procuram explicar a realidade
brasileira pela denominada Sociologia da herança
patriarcal-patrimonial. Assinale a afirmativa incorreta
acerca dessa linha de pesquisa e perspectiva teórica.
A Faoro (2001) toma caminho particular no interior dessa
perspectiva interpretativa: em vez do "patriarcalismo",
nossa peculiaridade moderna teria suas raízes no
Estado patrimonial que se constituiu em Portugal
desde os idos de sua formação. Durante séculos,
o Estado patrimonial português e sua burocracia
estamental mantiveram o controle supremo de toda a dinâmica colonial, não só do ponto de vista político-administrativo
e militar, mas também do ponto de vista
cultural, econômico e até mesmo religioso. Mesmo
o controle das oligarquias estaduais no período de
1889 a 1930 não teria representado mudanças tão
substanciais, já que, com a queda da monarquia, teria
prevalecido um tipo de relação autoritária entre as elites
políticas (estaduais e locais) e suas bases, marcado
por obediência pessoal e por extrema porosidade
entre os domínios públicos e os âmbitos privados
dos líderes mais proeminentes. A Revolução de 1930
representaria o fi m do Estado de tipo patrimonial e
a implementação do modelo burocrático de estilo
weberiano em todo o serviço público brasileiro.
B Sérgio B. de Holanda atribui à nossa herança
lusitana, marcada por aversão congênita a qualquer
ordenação impessoal da existência, a importância
remanescente do patriarcalismo no tecido social
do Brasil contemporâneo. O perfil da empresa
colonizadora de portugueses, ancorada na ética da
aventura em detrimento da ética do trabalho, revelaria
a incompatibilidade de nosso passado ibérico com a
racionalização característica de terras protestantes.
Com isso, estabilidade e segurança – atributos de
uma ordem racionalizada – teriam sido postos em
segundo plano em favor do desejo pela recompensa
imediata.
C Roberto da Matta defende a existência de um sistema
dual pretensamente estruturando e orientando o Brasil
contemporâneo: um código pessoal em coexistência
com um sistema legal individualizante enraizado na
ideologia burguesa liberal. Tal sistema dual expressar-se-ia
na posição que "casa" e "rua" ocupariam na
gramática social brasileira: a "casa", domínio privado
por excelência, seria o território da intimidade, do
familiar, das relações pessoais, do parentesco, da
afeição e do descanso; a "rua" (mercado, Estado,
tráfego, entre outros), domínio público por excelência,
seria um ambiente vivido e percebido como "a dura
realidade", esfera do trabalho, da luta, da disputa pela
sobrevivência e, com bastante frequência, da punição.
D Para Freyre, a extensão e a profundidade da
disseminação do tipo patriarcal de sociabilidade
seriam uma consequência do fato de que o latifúndio
patriarcal, baseado no trabalho escravo e orientado à
produção e à exportação de matérias-primas, veio a se
tornar algo mais que uma simples unidade econômica:
consolidou-se por muito tempo como locus político-administrativo,
militar e jurídico, além de centro
organizador da vida sexual, cultural e até mesmo
religiosa. Naquelas circunstâncias, diferenciação
social e impessoalidade teriam encontrado tremenda
dificuldade para florescer.
E Freyre, Holanda, Faoro e Matta têm em comum o
fato de atribuírem aos efeitos da herança patrimonialpatriarcal
sobre o Brasil contemporâneo a razão das
distorções de nossa sociabilidade moderna. Freyre
(1990, 1996, 2000) e Holanda (1994) claramente
convergem em direção à ideia de que certos códigos
de sociabilidade típicos da família patriarcal e do
pater familias teriam permanecido ativos na dinâmica
social do Brasil contemporâneo para além do período
colonial.