No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos
um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente
dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses.
Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história,
o predomínio constante das vontades particulares que encontram
seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a
uma ordenação impessoal. Dentre esses círculos, foi sem dúvida
o da família aquele que se exprimiu com mais força e
desenvoltura em nossa sociedade. E um dos efeitos decisivos da
supremacia incontestável, absorvente, do núcleo familiar —
a esfera, por excelência, dos chamados “contatos primários”,
dos laços de sangue e de coração — está em que as relações que
se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo
obrigatório de qualquer composição social entre nós. Isso ocorre
mesmo onde as instituições democráticas, fundadas em princípios
neutros e abstratos, pretendem assentar a sociedade em normas
antiparticularistas.
Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 146.