Uma tarde de inverno, estava eu lá, na rua Barão de
Itapetininga, mexendo nas estantes de uma livraria. (Não consigo
passar por uma sem entrar pra fuçar no meio dos livros. Desde
que eu tinha quatro anos de idade — o que já faz muito tempo —
livro para mim é a coisa mais gostosa do mundo. A gente nunca
sabe que surpresa vai encontrar entre duas capas.)
Pois bem, estava eu ali, muito entretida, examinando os
livros, quando de repente senti que alguém me puxava pela
manga. Olhei para baixo e vi um menino — um garotinho de uns
nove ou dez anos, magrelo, sujinho, de roupa esfarrapada e pé no
chão. Eu já ia abrindo a bolsa quando o garoto disse: — Escuta,
dona... — O quê? — perguntei. — Dona, me compra um livro?
— disse ele baixinho, meio com medo. Dizer que fiquei surpresa
é pouco. O jeito do menino era de quem precisava de comida, de
roupa, isso sim. Duvidei do que ouvira: — Você não prefere
algum dinheiro? — perguntei. — Não, dona — disse o garoto,
mais animado, olhando-me agora bem nos olhos. — Eu queria
um livro. Me compra um livro? Meu coração começou a bater
mais forte. — Escolha o livro que você quiser — falei.
O menino acabou se decidindo por um livro de aventuras,
nem me lembro qual. Mas me lembro bem da minha emoção
quando lhe entreguei o volume e vi seus olhinhos brilhando ao
me dizer um apressado “Obrigado, dona!” antes de sair em
disparada, abraçando o livro apertado ao peito.
Tatiana Belinky. Onde já se viu? In: Olhos de ver.
3.ª ed. São Paulo: Moderna, 2004, p. 19-21 (com adaptações).