O repórter conta antes do memorialista, e o torna inútil.
Sabemos hoje de cada literato o que ele come e bebe, o clube
esportivo a que se consagrou, o número de seus sapatos e de suas
camisas, se é supersticioso, se ajuda a mulher em casa, se fila
cigarros ou os compra, se tem medo de morrer e se ronca.
O escritor deixa-se fotografar de pijama, brincando com os netos
ou soltando pandorga na praia.
É visível que tais circunstâncias não deixam margem
à sobrevivência dos gêneros clássicos da biografia,
da autobiografia, do diário íntimo e das memórias. A fórmula
jornalística superou a calma atitude do homem que sacava
da pena de pato para confiar ao papel de boa fibra um segredo
da juventude a ser revelado aos pósteros.
Essa contínua e imediata exposição do presente retira
ao homem uma de suas dimensões essenciais, que é o passado.
Inibe-o de recordar, porque ele já não acumula no esquecimento,
para depois reviver. Sua vida vai desfilando ao alcance e à mercê
de seus olhos e dos alheios, e, se está enfastiado de se assistir
viver em todo o impudor dessa publicidade, só lhe resta apertar
um botão e desfigurar essa espécie de aparelho supersônico em
que, como num filme falado, nossa vida moderna se desenrola.
E, mais do que nenhum outro ser, o escritor precisaria de
retraimento que o reconduzisse à intimidade consigo mesmo e
às raízes da vida, que lhe cabe pesquisar e interpretar. Sua pessoa
devia ser objeto de clausura perfeita, só interrompida pelos surtos
naturais de sua avidez de comunicação, ou pelas atividades
peculiares ao ofício.
Nem se chame a isto de solidão orgulhosa ou inumana,
prejudicial às fontes da criação. O melhor ou o único, porque
específico, do escritor é o que ele escreve; o mais se dilui
nas condições comuns a todo cidadão.
Já é tempo de o escritor voltar a seu ofício.
Carlos Drummond de Andrade. Memórias.
In: A manhã; suplemento letras e artes, 15/3/1953.
Internet:<memoria.bn.gov.br> (com adaptações).