INSTRUÇÃO: Leia, com atenção, o texto 01 e, a seguir, responda à questão, que a ele se refere.
Texto 01
Corpo, comida e afeto: uma reflexão sobre culpa e aceitação
Eu amo comer coisas diferentes, ando pela cidade à procura de pratos que eu não sei o nome, mas que meu
coração (que fica ao lado do estômago) com certeza sabe bem.
Comer, para mim, se tornou uma experiência afetiva, dessas que nos teletransporta, que traz contentamento
e satisfação, não só pela comida, mas por tudo que ela envolve.
Tem cheiro, textura, nomes dos mais variados, tem ingredientes que a gente nem imagina de onde saiu, tem o
exótico, o trivial e tem o simples. Tem o inusitado, o que mistura doce com salgado e, na minha opinião, foi um acaso
divino de alguém que decidiu juntar duas coisas muito boas para ver no que dá.
Especialmente se tem queijo coalho com mel ou goiabada, aquele gosto agridoce difícil de explicar, mas que
dispensa qualquer explicação, um sabor que me faz lembrar as viagens que fiz para Minas Gerais.
Me lembra também a saudosa avó Maria, a mineira que nunca economizou nem no afeto, muito menos na
comida. Ela sabia bem como preencher vazios de todos os tipos com o seu talento inegável na cozinha, comer sua
comida era como receber carinho na alma e eu sei que você já deve ter sentido isso alguma vez na vida. Mudam-se
os nomes, mudam-se as cidades, mas sabor de Minas é sempre de Minas.
Viajei por treze países e provei pratos das mais variadas cores, sabores e lugares. Conhecer uma parte do
mundo me fez comer de tudo, porque isso também é cultura, então minhas melhores memórias, adivinhem, também
tem comida! Mas, nada supera Minas.
Falo de Minas porque é, para mim, uma referência mundial na arte da culinária. Também, se há alguém mais
afetivo que o povo mineiro, desconheço.
A gente sente afeto na comida, na fala, no abraço gordinho de vó, que encosta barriga de avental no forno a
lenha e coloca parte de todo o seu amor na panela. Essa é a forma mais perfeita de demonstrar amor.
Mas, em tempos de redes sociais e padrões corporais, o afeto anda perdendo seu brilho. Afinal, comer também
engorda, dá barriga, causa culpa e, nessa cultura da dieta excessiva, também virou pecado — mas não em Minas.
Concordo que a gula faz mal, é verdade, mas será que a culpa também não faz? E se meu corpo, que é
abençoado e não culpado, também for visto como um veículo e um instrumento para me fazer feliz?
Pouco importa aquela barriguinha que está ali para me lembrar de parte das minhas histórias. Por isso, não
posso cortá-la, criticá-la ou fazer uma lipo em tudo de bom que já vivi, não seria justo nem comigo, nem com Minas, e
muito menos com a Dona Maria.
E já que a maturidade e a vida adulta são um prato cheio de perdas e percalços, resolvi aceitar os meus bocados,
as porções e os meus pedaços, aceito também os meus inteiros. Inclusive, mais uma fatia de queijo, com mel e afeto,
por favor!
Disponível em: https://vidasimples.co/voce-simples/. Acesso em: 31 mar. 2024. Adaptado.